
jornalista Sucena Shkrada Resk
Formada em Jornalismo,
pela PUC-SP, há 20 anos,
com especialização lato sensu
em Política Internacional (1998) e
Meio Ambiente e Sociedade (2009),
pela FESPSP
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socioambientalismo e sustentabilidade
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-jornalista Sucena Shkrada Resk,
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Entremundos...
-23 e 24/08/2010
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Fórum Social Mundial 2010
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Educação Ambiental 2009
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•Fórum Social Mundial 2009
27/01 a 01/02/09-Belém-PA
•Travessia Amazonas
(Belém-Santarém)
-03/02 a 05/02/09
•Povos da Floresta
no Tapajós-PSA 02/2009
"Atos de cidadania
estão sempre
a nossa frente,
mas isso
não significa,
que estamos
atentos para percebê-los.
Esse espaço é para
dar vazão ao crédito
que podemos dar às pessoas,
instituições, empresas,
gestores... que têm fibra
e persistência na arte
de viver com dignidade;
como também, expor
pensamentos e imagens
que retratem nossa
indignação com os desmandos
e a ausência do
exercício de cidadania
flagrados no dia a dia.
E esse exercício de reflexão
não tem fronteiras
geográficas ou étnicas..."
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20/08/200823:42 REDIRECIONE A LEITURA PARA O BLOG PRINCIPAL A V I S O
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obs: este endereço (www.cidadaosdomundo.blog-se.com.br), no plural, foi desativado em 2008 Sucena Shkrada Resk
04/08/200816:12 Pensata: Como dar sentido à educação..., por Sucena Shkrada Resk Nos últimos tempos, o tema educação tem sido uma pauta à qual tenho dedicado um pouco de atenção, devido a um trabalho voluntário que estou desenvolvendo. E a reflexão sobre o que é prioritário na formação do cidadão, com certeza, vem na linha de frente de uma infinidade de incertezas com as quais estou me deparando. Afinal, o quadro que se apresenta é o de uma infância e adolescência carentes de valores morais, dos saberes das letras, da matemática, das ciências e reticente no prazer do aprender, por falta de estímulo psicossocial e, inclusive, de nutrientes básicos na formação física. Em miúdos, carente de alimentação em todos os sentidos!
Nesse processo de observação e troca de experiências, conceitos caem por terra. Como não rever o que até então eram hipotéticas verdades, quando no dia-a-dia desses estudantes, há a falta de conforto mínimo, já que muitos vivem em cubículos de poucos cômodos, onde têm de dividir o espaço até com dez pessoas. Nessa ciranda de ausências, falta diálogo entre pais e filhos, existe a cruel depressão socioeconômica, além dos perigos nas ruas.
Esses jovens cidadãos brasileiros, muitas vezes, expressam com todas as letras que se sentem marginalizados por morarem em vielas, onde o perigo mora ao lado. E nesse confronto, a vontade de seguir adiante, vislumbrar o futuro sofre um bloqueio impiedoso, que precisa ser quebrado. E heróicamente é quebrado por alguns representantes desses estudantes, que são os multiplicadores anônimos dessa esperança.
Para completar essa situação que causa inquietude, vem mais uma avalanche da problemática do sistema educacional. Aí, a questão é a seguinte: como solucionar o problema crônico de instituições de ensino, que com "receio" de ter suas bibliotecas destruídas, simplesmente dificultam o acesso ao acervo. Aqui está parte de um cenário real coberto de paradoxos que se contrapõem à esperança em um futuro com mínimo de dignidade, que qualquer ser humano merece.
Nesse círculo vicioso, professores desmotivados, afrontados por seus alunos vêem o seu papel de educador descontruído por uma formação fisiológica ou por regras bonitas no papel, mas que no dia-a-dia, simplesmente não funcionam. Mais que respeito a um "superior", falta o respeito ao semelhante. Agressões verbais e até físicas começam cruelmente a ser banalizadas nesse cotidiano.
Essa desconstrução da educação vai mais além do que x trocado por ch, ou "erres" que fogem das palavras ou de concordâncias discordantes. O implacável é a contaminação travestida de desestímulo. Crianças hipoteticamente alfabetizadas sentem um terrível desconforto ao ler enunciados simples e se sentem cansadas ao escrever mais do que cinco linhas, em que haja necessidade de expressar seus próprios pensamentos. Desconhecem o nome de suas ruas, de seus irmãos, a origem de suas famílias e, até, que o Brasil é um país. Isso tudo está acontecendo na maior e mais rica cidade do Brasil - São Paulo, que na verdade, é uma colcha de retalhos de vários pesos e medidas.
Mas o simples fato de que uma situação dessas causa indignação, sinaliza que nem tudo está perdido. Essa injeção de estímulo vem por meio de palavras, como da pedagoga Maria Dolores Fortes Alves, na obra "De Professor a Educador". No livro, a autora permeia o exercício de ensinar em suas diversas formas e chega à conclusão, após realizar uma pesquisa com professores e ter o aparato de uma bibliografia, com nomes como o filósofo francês Edgar Morin e o respeitado educador Paulo Freire (1921-1997), que o caminho é ressignificar os valores e despertar a autoria dessa juventude.
Com essa premissa, o educador substitui a figura institucionalizada do professor. Nessa relação com o educando, Maria Dolores cita a importância da confiança. É uma troca de colheita a acolhimento. Nessa trajetória, segue o respeito, a solidariedade, confraternização, compreensão e amor. Não é mais possível manter a ditadura cega para mudar o sentido desequilibrado, que aflige a educação nos dias de hoje. E para isso, o desafio é cativar! E nada mais próprio para expor essa idéia, do que a frase de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe, citada pela autora - ...'Os homens não têm de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!"...
Sucena Shkrada Resk
22/07/200813:44 Não pode cair no esquecimento, por Sucena Shkrada Resk A história mundial nos reserva fatos hediondos que não podem ser esquecidos, por uma questão de respeito a milhares de pessoas que morreram em decorrência dessas atrocidades, às suas famílias que convivem com esse martírio, que atravessa gerações, e à própria humanidade. Isso não quer dizer que valia a "lei de talião" nesses casos, mas com certeza, líderes genocidas devem responder por seus atos, por meio da Justiça, e não podem ficar impunes, como se nada tivesse acontecido.
Nesta semana, me chamou a atenção a notícia sobre o anúncio da prisão do ex-líder sérvio-bósnio, o médico psiquiatra e poeta Radovan Karadzic. O então presidente "democrata" é acusado de ser responsável pelo comando do massacre que resultou na morte de cerca de 8 mil muçulmanos bósnios e croatas em Srebrenica, na antiga Iugoslávia, além de mais 10 mil pessoas, em Sarajevo, no ano de 1995. Ele deverá ser encaminhado ao Tribunal Penal Internacional para a ex-Ioguslávia (TPII), que foi criado para tratar esse crime de guerra. Agora, espera-se que o senhor transfigurado, que exibe hoje cabelos e barbas brancas, seja julgado e cumpra a pena devida.
Há 13 anos, está foragido, apesar de ter sido indiciado por duas vezes pelo tribunal de crimes de guerra da Organização das Nações Unidas (ONU). E o mais incrível é que, neste período, estava clinicando sob outro nome em Belgrado, e ainda colaborava para uma revista de vida saudável. A situação surreal mostra como o homem político e com uma mente desequilibrada pode se travestir com várias roupagens, de acordo com as circunstâncias.
O híato da memória da humanidade foi quebrado em 2005, quando os holofotes da mídia e da comunidade internacional se voltaram novamente à Karadzic, porque veio à tona vídeos de execuções, que revelaram as atrocidades praticadas por soldados sérvios, em 1995. O ex-presidente sérvio nega as acusações e se diz "injustiçado". Entretanto, foram seus subordinados que destruíram tantas vidas, por causa de um conflito étnico e religioso, sem precedentes.
Sucena Shkrada Resk
16/07/200818:41 O melhor sentido da luta, por Sucena Shkrada Resk O mineiro Gleison Fernandes de Faria, 30 anos, da cidade de Itaúna, é um dos milhares de brasileiros deste país, a quem podemos chamar de herói, sem cair no piegas. Gleisinho, como gosta de ser chamado, é portador de necessidades especiais desde o nascimento, quando quatro segundos sem respiração mudaram o trajeto de sua vida. Todas as limitações impostas por isso não foram suficientes para exterminar o que tem de mais contagiante - a vontade de viver e de contribuir para uma sociedade mais solidária.
Recentemente Gleisinho, que é formado em Ciência da Computação, pela Universidade de Itaúna, ganhou o Prêmio Nacional do Senai, ao projetar um teclado adaptado a Portadores de Necessidades Especiais (PNE). Com este equipamento, o usuário tem mais mobilidade para poder teclar, de acordo com os recursos físicos, que disponha. Seja com os pés, ou com um instrumento manipulado com a boca.
O fato, é claro, chamou a atenção da mídia. Mas muito mais que uma notícia que "comove" e rende ibope, prova que ainda temos muito a aprender sobre o exercício de viver. O jovem, que trabalha hoje na mesma universidade em que se formou, também tornou-se palestrante, há algum tempo. O ofício é mais uma fonte de renda para ele, segundo declara, no site que criou (www.gleisinho.palestras.nom.br). Afinal, é um homem independente, e batalha honradamente por seu ganha-pão e seu espaço como cidadão, como cada um de nós.
Suas palestras, pode-se dizer, são extremamente cognitivas e sensoriais. Apesar da dificuldade na fala, de depender de uma cadeira de rodas, Gleisinho conta que transmite sua experiência a variadas platéias, com a ajuda de um intérprete, que facilita a comunicação. Esse elo prova que é possível superar qualquer barreira, quando não temos vergonha de pedir auxílio e o outro tem o prazer de ajudar.
Enfim, consegue, através da sensibilidade, gesto e energia, contribuir, de fato, para uma sociedade mais justa, e comprova que os diversos obstáculos que a vida nos impõe, estão aí, para serem superados. Depressão e limites físicos, de acordo com sua experiência, podem ser coisa do passado, a partir do momento que acreditamos em nosso potencial e corremos atrás de um futuro sem rótulos.
Para isso, somente muito empenho e luta, no sentido mais positivo da palavra, ao contrário do exemplo de tanta gente que se julga inquebrantável e à prova de qualquer erro. O mineiro de Itaúna erra, corrige, compartilha suas descobertas, e não tem medo de recomeçar, se necessário. É um ser humano de carne-e-osso, que domina suas limitações com garra, sem se melindrar com as imposições de uma sociedade ainda tão preconceituosa.
Sucena Shkrada Resk
11/07/200814:26 Uma acessibilidade longe ainda do dia-a-dia, por Sucena Shkrada Resk Quando se trata de legislação, o Brasil é um dos países mais ricos em leis no mundo. A questão é a implementação de todo este arcabouço de artigos e mais artigos na realidade do cidadão. Nesta semana, o país politicamente, obteve mais uma conquista, ao consolidar a ratificação da Convenção de Direitos do Deficiente. O Senado aprovou por 56 votos, o projeto de decreto do legislativo (PDS 90/08), que prevê o cumprimento das diretrizes dos textos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU), do ano passado. O documento encaminhado para sanção ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora, é mais um instrumento legal. A incógnita é saber o que, de fato, vai ser colocado em prática.
É importante destacar que os países que adotam a convenção são obrigados a eliminar costumes, leis e práticas discriminatórias. Isso reflete em ações com relação à inclusão social, educação, saúde, emprego e proteção social.
Vale lembrar que, desde 2000, já vigoram as leis nacionais voltadas à Acessibilidade - nº 10.048 de 8/11/2000 e 10.098, de 19/12/2000, que foram regulamentadas quatro anos depois, pelo decreto nº 5.296 - 2/12/2004, mas que na realidade, ainda estão longe do cumprimento efetivo.
Para compreender um pouco desse complexo tema, basta ver o que diz alguns trechos, quanto à quebra de barreiras aos portadores de deficiências:
" ...acessibilidade: possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos transportes e dos sistemas e meios de comunicação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida;
II – barreiras: qualquer entrave ou obstáculo que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento e a circulação com segurança das pessoas, classificadas em:
a) barreiras arquitetônicas urbanísticas: as existentes nas vias públicas e nos espaços de uso público;
b) barreiras arquitetônicas na edificação: as existentes no interior dos edifícios públicos e privados;
c) barreiras arquitetônicas nos transportes: as existentes nos meios de transportes;
d) barreiras nas comunicações: qualquer entrave ou obstáculo que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens por intermédio dos meios ou sistemas de comunicação, sejam ou não de massa;
Quando se define que pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida é aquela que temporária ou permanentemente tem limitada sua capacidade de relacionar-se com o meio e de utilizá-lo, tratamos de um público estimado de 27 milhões de pessoas portadoras de deficiência e mais de 20 milhões de idosos. E eu e você, que a qualquer momento podemos também integrar esta estatística. Afinal, o direito de acessibilidade é para todos.
Todos os itens dispostos na legislação vigente são conscienciosos, mas o que vemos todos os dias ainda é muito pouco que corrobore neste sentido. Como exemplo, temos a quantidade infindável de buracos e calçadas "cheias de armadilhas" nos grandes centros urbanos, passeios reformados que ainda têm algum tipo de problema, como pedras soltas.
Muitas administrações públicas não dão conta de tamanha responsabilidade - para tornar viável essas adequações. Por sua vez, milhares de "cidadãos" e instituições privadas não mantêm em boas condições os patrimônios ou não os adeqüam às normas técnicas.
Ainda vemos aos poucos, iniciativas em construções e edificações novas, com os requisitos técnicos corretos e outras, incrivelmente, ainda inadequadas. Como compreender esta dicotomia?
O prazo de junho de 2007 para que todos os prédios públicos se adequassem à Lei de Acessibilidade no país, já foi cumprida nos municípios brasileiros? Se alguém puder me responder.... E as construções particulares estão se adequando às normas?
Os Planos Diretores Municipais e Planos Diretores de Transporte e Trânsito já estão em conformidade com a Lei de Acessibilidade?
Não é preciso ir muito longe. Como é possível compreender que sejam construídas rampas tão íngrimes, que praticamente impedem que o portador tenha segurança de caminhar. Ou portas tão estreitas, que inviabilizam a passagem de cadeiras de rodas? E mais, milhares de calçadas sem o dispositivo para sinalização a deficientes visuais.
Na área de transporte público, apesar de muitos ônibus estarem adaptados às normas técnicas, outros são praticamente uma grande armadilha. Sequer é possível dobrar a perna, pois a distância entre um banco e outro é ínfima. Sem dizer, corrimões soltos, portas com defeitos etc.
Os ônibus adaptados com pisos diferenciados também são, no mínimo, um exemplo de antagonismo. Enquanto facilitam o ingresso de cadeira de rodas, dificultam a mobilidade interna com escadas. A cada solavanco, qualquer pessoa está sujeita a se machucar, devido a esses desníveis.
Só nos resta acompanhar e fiscalizar o cumprimento dessas legislações, cobrar dos órgãos públicos, de engenharia e de regulamentação técnica uma participação maior da população, que sente na pele todas as dificuldades e, acima de tudo, sermos contribuintes efetivos na manutenção e desenvolvimento dessas adeqüações. Afinal, não dá para ser eternamente passivo diante do que aparentemente não nos afeta de perto. Um dia nós, nossos familiares e amigos também podemos ser vítimas do descaso. E aí - a quem vamos remeter a culpa?
Sucena Shkrada Resk
09/07/200816:08 É hora de refletir, por Sucena Shkrada Resk Mais um ano de eleições, e a máquina política começa a funcionar a todo vapor. Esse período me lembra - em algumas circunstâncias - o termo "ingênuo útil", que infelizmente cabe a uma massa, que desconhece o poder e a importância do voto consciente. E especialmente me remete ao enredo da peça descrita no livro Um Inimigo do Povo, do escritor nórdico Henrik Ibsen, pela L&PM Pocket, que estou lendo nesta semana. A obra do século XIX é incrivelmente atual, quando se trata de penetrar nos meandros de alguns exemplos negativos que podem ocorrer com a máquina administrativa e com os jogos de interesses, nesta ciranda, que envolve ainda iniciativa privada, mídia e os próprios cidadãos.
Demonstra o quanto o regime dito democrático pode sofrer uma extenuante deturpação, quando se trata de poder e lucro. Neste caso, envereda para um anulação da consciência individual, diante da retórica da mesquinhez. E nesse universo, surge, volta e meia, algum personagem quixotesco, que no livro, é representado pelo o médico Thomas Stockmann.
Com a ingenuidade e boa intenção de querer divulgar a contaminação da água no balneário da cidade - que é o grande chamariz da administração pública- sofre retaliações de todo o tipo. Tudo porque, depois de receber um laudo técnico, decide divulgar o problema, por meio do jornal local, para que haja uma ação contundente da Prefeitura (cujo gestor é o seu próprio irmão, Peter). Diante de sua certeza das graves consequências de saúde pública, se vê sozinho, nesta empreitada, porque outros interesses estão em questão.
O prefeito quer se reeleger a todo custo, o dono jornal e o dirigente da associação de empresários não pensam duas vezes em voltar atrás em ajudar o médico, quando em conluio com o gestor público, percebem que podem perder dinheiro com isso. Por sua vez, o dono de um dos maiores curtumes - de onde vem o problema - não quer, de maneira alguma, ver seu estabelecimento tradicional denegrido. Afinal, as obras de recuperação exigirão um gasto considerável, que afetará o bolso de todos, revelará uma falta de ação efetiva de governabilidade, e ao mesmo tempo, fechará por algum tempo, a maior fonte de renda da cidade, que é o balneário.
E uma massa contaminada por esse discurso, que desacredita o dr. Thomas, nem sequer, dá voto de confiança ao médico, que simplesmente quer ajudar a população.
O prefeito não quer ver sua gestão aniquilada por ineficiência e usa de todo o poder de pressão - para minimizar o problema. Diz que a obra sairia muito cara e do bolso da população e não é tão grave, como o médico afirma. O argumento cai como uma luva para influenciar o jornal local, os empresários e os contribuintes.
Dr. Thomas - desiludido - discursa para essa platéia "massificada", destacando de forma incisiva, essa falta de consciência dos cidadãos - e acaba sendo taxado de inimigo do povo. Ainda, por cima, é demitido e execrado pela comunidade.
Moral da história. Esse conto se repete na vida real, muitas vezes, ainda no século XXI, com outros personagens, por esse mundo afora. E cabe a nós, "eleitores", termos discernimento em avaliar as informações e ações executadas pela mídia, pelos governos e pelas entidades, e não servirmos de massa de manobra para interesses escusos. Com isso, percebemos, que muitas vezes a opinião pública não representa a suprema verdade, justamente devido à ignorância.
E dá o seguinte recado...não devemos ter medo de sermos solitários, em alguns momentos de nossas vidas, quando temos consciência sobre a importância e retidão de nossas iniciativas. Afinal, como o próprio dr. Thomas fala no livro - "...o homem mais poderoso que há no mundo é o que está mais só...". E não é que muitas vezes isso é verdade?
Sucena Shkrada Resk
02/07/200821:41 De volta à vida, por Sucena Shkrada Resk Legenda: reprodução de imagens de libertação da ex-senadora e candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, e outros reféns das Farc, que chegaram a ficar por nove e dez anos em cativeiro (exibição televisionada pela Rede CNN e reproduzida pela Record News, em 02/07/2008
 
 

"Vou seguir lutando pela liberdade e rodar o mundo em prol de quem está no cativeiro. Penso hoje em todos os seqüestrados mortos pela guerrilha...", disse hoje a ex-senadora e candidata à presidência colombiana em 2002, Ingrid Betancourt, em declaração pública, após ser resgatada pela Inteligência do Exército Colombiano, do poder das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas. Por seis longos anos, a política de origem franco-colombiana viveu "humilhações e privações" nas selvas do país, onde ficou com a saúde debilitada, ao contrair hepatite e leishmaniose, entre outras doenças - uma fronteira entre a vida e a morte, pela qual muitos outros reféns passaram e ainda passam.
Segundo Ingrid, foi um período em que se sentiu na pré-história. "Na selva, qualquer coisa é luxo, porque tudo é escasso. Não havia luz elétrica ou água corrente. Há muito tempo não sei o que é um banho quente", declarou à imprensa internacional presente no Aeroporto de Bogotá, onde desembarcou com mais 11 reféns colombianos libertados, além dos dois norte-americanos, que seguiram diretamente aos EUA. A entrevista ao vivo foi exibida pela CNN e reproduzida pela Record News.
Um desconforto político internacional
A possibilidade de sua libertação, nos últimos meses, era considerada incerta, devido a sucessivas tentativas frustradas, que gerou mal-estar diplomático no Cone Sul, principalmente entre o presidente colombiano Álvaro Uribe e o venezuelano, Hugo Chaves, por esse último querer intervir nas "negociações" com as Farc, que ainda mantém muitos prisioneiros civis e militares. Nem a intervenção do líder francês Nicolas Sarkozy foi suficiente para haver êxito anterior de uma operação de resgate.
O semblante sereno da ex-senadora e candidata à presidência colombiana, ao sair hoje com os demais reféns, do avião que a trouxe a ambiente seguro em Bogotá, representou um sucesso de ordem humanitária e, inclusive, política do governo do presidente Álvaro Uribe, que trava uma batalha com a justiça do país, que questiona sua eleição. O resgate - sem feridos, executado pela inteligência militar colombiana, repercutiu mundialmente.
Ingrid conta que pensou que o grupo que estava entrando em contato com ela e outros reféns pertencesse a alguma comissão humanitária. Já os guerrilheiros achavam que eram companheiros de causa. No entanto, a abordagem estava sendo feita pelos militares disfarçados do governo colombiano. "Quando entramos no helicóptero e descobrimos que estávamos sendo salvos, saltamos de alegria. Foi um milagre de Deus. Não há antecedentes históricos de uma operação tão perfeita", conta a ex-senadora, que agradeceu ao exército e ao presidente Uribe, pela coragem de se arriscar nesta empreitada, que poderia ter outro desfecho.
Ingrid Betancourt narrou, que há um ano, a situação de infra-estrutura da guerrilha está cada vez mais precária. "Já dá sinal das dificuldades de logística do grupo. A comida é escassa, há problemas para conseguir botas e roupas...".
Esse convívio da ex-senadora com os guerrilheiros - que são acusados também de narcotráfico - é considerado útil pelo governo colombiano com relação à luta travada com as Farc. "Percebo que tinha de ter passado por tudo isso, até para conhecer como são as Farc . Espero que possam ser úteis esses momentos da vida que estive em uma encruzilhada", disse.
Sucena Shkrada Resk
26/06/200809:47 Título:Sem medo de defender convicções, por Sucena Shkrada Resk Quando percorremos a história republicana brasileira, sobram poucas referências às "primeiras-damas", ou por extrema falta de crédito que a mídia concede às esposas dos presidentes ou pela falta de exemplos de ação mesmo, que compete ao seu papel e status, que não se restringe a cerimoniais. No caso da antropóloga Ruth Corrêa Leite Cardoso (1930-2008), a sua postura merece menção, pois extra a sua carreira acadêmica e de consultora internacional, foi uma primeira-dama (termo que abolia) que colocou as suas convicções intelectuais à disposição da massa, com o Programa Comunidade Solidária.
Estima-se que, de 1995 a 2002 (período da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso), tenham sido alfabetizadas mais de 3 mi pessoas e capacitadas 114 mil para o mercado de trabalho. O empenho da antropóloga em promover a autonomia de mulheres artesãs por esse Brasil também é algo digno de nota.
O que enriquece essa atitude é o fato de condizer a uma postura que sempre defendeu como cientista política e conselheira do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre Mulher e Desenvolvimento. Empregou a intelectualidade a algo concreto - repassou conhecimento, fazendo com que milhares de cidadãos pudessem ter acesso à educação e ao desenvolvimento de suas habilidades. Implementou uma nova mentalidade de política social. Mesmo após o término do mandato de FHC continuou a sua mobilização como conselheira da Oscip Comunitas, que dá continuidade ao projeto.
E o que é preciso destacar, é que apesar de sua morte, nesta semana, aos 77 anos, o seu legado já está multiplicado. Uma postura que transcende partidarismos de esquerda, direita ou centro, e que nasceu de uma cidadã - que não gostava de estar sob os holofotes da mídia -, que foi e continuará a ser respeitada por sua contribuição à sociedade, sem ter se preocupado em vida em receber os "louros" por isso.
Sucena Shkrada Resk
24/06/200811:53 Será que as novas gerações sabem o que representa Mandela?, por Sucena S.Resk

Legenda: Nelson Mandela, anos 60 - reprodução no livro -Nelson Mandela - A Luta é a Minha Vida, pela Editora Globo
A caminho dos 90 anos em 18 de julho de 2008, o sul-africano Nelson Rolihlahla Mandela é o que podemos chamar de um ícone da paz, que excede a uma simples designação nos livros de história e à credencial de ter recebido o prêmio nobel. Muitos jovens das novas gerações nem sabem quem é este homem, que ficou por 27 anos preso, por acreditar em uma causa - a democracia na África do Sul, contra o regime do Apartheid.
Apesar dos anos atrás das grades, não esmoreceu o vigor por seus ideais, quando foi libertado em 1990, sob forte comoção da população e do "mundo". Quatro anos depois, lá estava ele, no posto mais alto de seu país - o de presidente - mas sem deixar de lado uma característica ímpar - de ouvir, refletir e multiplicar a proposta de isonomia, numa ciranda de desigualdades impostas por décadas de segregação racial. Esse homem já septuagenário ainda teve fôlego para levantar mais uma bandeira - a do combate a Aids, que dizima milhares de cidadãos pelo continente africano.
Até hoje, guardo com carinho o livro "Nelson Mandela - A Luta é a Minha Vida", organizado pelo Fundo Internacional de Defesa e Auxílio para a África Austral (Idaf) - tradução de Celso Nogueira publicada pela Editora Globo -, que adquiri exatamente em 26 de fevereiro de 1990, quando cursava a faculdade de Comunicação Social - Jornalismo, na PUC-SP. Com certeza, não é mais um título na estante. Foi o meu primeiro contato com a trajetória desse líder negro e sua aspiração libertária, que foi marcada por manifestações inesquecíveis.
O nome da obra refere-se justamente a um trecho de uma das centenas de manuscritos que Mandela escreveu. Especificamente, em seu período de clandestinidade, em 26 de junho de 1961, três anos antes de ser condenado à prisão perpétua.
E nesta sexta, haverá um grande show em Londres em sua homenagem - em vida - o que é importante frisar. Espero que signifique muito mais que um momento de "alegria", mas de lembrança de uma luta que não pode ficar confinada no tempo. Uma bandeira sem cor, sem credo. Uma bandeira de um cidadão que soube e sabe valorizar a solidariedade e irradiou essa energia pelo planeta.
Sucena Shkrada Resk
16/06/200810:10 A cidadania pela música, por Sucena Shkrada Resk
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Legenda: reprodução de imagem de TV - exibição_15-06_08_apresentação Orquestra Criança Cidadã, de Recife, no Domingão do Faustão
Finalmente, os programas televisivos começam a acordar aos poucos para a cidadania, ao exibir trabalhos dignos de mobilização. Ontem pude ver um desses exercícios de jornalismo social, ao assistir ao case brasileiro, aparentemente bem-sucedido, do projeto Orquestra Criança Cidadã, de Recife, PE. Há um ano e meio, cerca de 150 crianças e adolescentes, moradores da comunidade carente do Coque - uma das mais violentas da capital pernambucana - fazem uma imersão no aprendizado musical, sob a batuta do regente Cussy D`Almeida. Pequenos artistas, a partir de seis anos de idade, aprendem a tocar instrumentos de corda, de onde tiram sons belíssimos de violinos, violoncelos... São clássicos de Vivaldi, Villa-Lobos...
O maestro -que um dia foi assaltado quando passava por esta comunidade - é isso mesmo - resolveu retribuir, doando um pouco de sua vivência e experiência de mestre ao incentivar os jovens desse bairro pernambucano. Levou uma didática diferenciada do padrão tradicional das escolas, porque parte do lúdico para depois ingressar nas notas musicais. "Dificilmente conseguiríamos em tão pouco tempo, que esses alunos tivessem a performance que têm", diz. A subversão da ordem, segundo ele, teve inspiração no modelo japonês Suzuki. E o resultado é realmente emocionante. A cadência e o ritmo impresso por esses meninos e meninas, que têm a ausência de condições de vida mais digna, revelam um bem maior, que é o potencial e sensibilidade expressos pela dedicação desses jovens brasileiros.
A iniciativa só consegue sustentação porque recebe o apoio de empresas patrocinadoras da região. Inclui refeições e apoio escolar aos alunos, porque são itens prioritários para a vida de qualquer ser humano e, que muitas vezes, são escassos nas mesas das famílias desses estudantes.
Segundo o coordenador da entidade, o juiz corregedor João Targino, em entrevista concedida ontem no programa Domingo do Faustão, na TV Globo, o paradigma de inserção social é o seguinte. "Enquanto um detento custa mensalmente cerca de R$ 2,6 mil no sistema prisional pernambucano, o per capita do trabalho com essas crianças não chega a R$ 1 mil. Então, o que vale mais a pena?".
Realmente é algo a se pensar. Afinal, "valorar" investimentos é importante, pois é preciso aflorar o que cada um de nós temos de melhor. Não é mais possível, vermos cenas cotidianas de infâncias destruídas pelo crime, pelas drogas, pela falta de perspectiva, de dignidade e humilhadas por um sistema que privilegia a desigualdade. Há outros exemplos por esse Brasil, como o projeto Orquestra Jovem Baccarelli, em Heliópolis, entre outras, em São Paulo. São sementes plantadas e semeadas por pessoas idealistas que podem, de fato, mudar o caminho de muitas vidas.
Sucena Shkrada Resk
26/05/200823:21 Especial Brasil/Japão - Peru antecedeu Brasil, por Sucena Shkrada Resk O Peru recebeu os imigrantes japoneses, em 1899, antecendo 9 anos ao Brasil. A psicóloga e museóloga peruana Amélia Morimoto, da Universidad Mayor de San Marcos, traduziu essa trajetória por meio de fotos históricas, que expôs durante o Simpósio Internacional Presença Japonesa na América Latina, no último dia 20, realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo.
"No início, os camponeses iam principalmente para as áreas de cultivo de cana-de-açúcar, mas dos 790 japoneses, desse primeiro grupo, 150 faleceram por causa do paludismo", conta. Os imigrantes sobreviventes e seus descendentes começaram a formar comunidades de serviços e promover a urbanização, com o passar do tempo.
Na década de 30, 80% dos japoneses deportados, segundo ela, seguiam ao Peru. "Na década de 60, o destaque foi a construção do Centro Cultural Peruano Japonês", diz. Os japoneses começaram a marcar presença na indústria e na educação, ao abrir escolas. Nos anos 70, a cozinha nikkei, principalmente com pescados e mariscos, foram marcas deixadas de sua contribuição. Nas artes, um dos expoentes foi o poeta José Watanabe (já falecido), que foi reconhecido, inclusive, na Espanha.
"Na política, houve a figura controvertida de Alberto Fujimori. Durante o seu governo, muitos pequenos negócios desapareceram. Mas muitos nikkeis votaram nele, o associando à colônia japonesa. E a partir de 1988, começa o fenômeno de fluxo inverso, com os dekasseguis, que seguiram em maior número para Okinawa", afirma a museóloga.
Segundo ela, os filhos dos dekasseguis que nascem no Japão já não querem mais voltar ao Peru. "Em contrapartida o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) está incentivando a criação de empresas no Peru, o que está sendo um incentivo aos nipo-peruanos retornarem ao país", fala.
Como no Brasil, o período pós 2ª Guerra Mundial começou a refletir um outro retrato da imigração japonesa no Peru. "Somos peruanos descendentes de japoneses. As feições vão se perdendo, mas nossa preocupação é com a transmissão dos valores de respeito e honestidade", diz Amélia Morimoto.
"....Perdemos a língua, apelidos e ganhamos outros, com a fusão da cultura. Com essa mescla, surge uma nova cultura de tolerância, de ser parte dessa existência da sociedade latino-americana...Mas hoje é um incógnita as propostas dos jovens nisseis quanto ao tema imigração", afirma.
Sucena Shkrada Resk
25/05/200819:46 Especial Brasil-Japão - O fenômeno dekassegui (continuação), por Sucena Shkrada Resk O debate sobre a situação dos dekasseguis acalora opiniões. Segundo Reimei Yoshioka, da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, é preciso ter uma atenção ao futuro das crianças, no processo de idas e vindas. "É uma questão muito séria, pois não estão preparadas para enfrentar a escola japonesa e o retorno ao Brasil, ao mesmo tempo", avalia.
Segundo Yoshioka, os jovens dekasseguis cometem mais infrações no Japão, do que aqui no Brasil. "É uma situação anômala, que reflete na aceitação da presença dos brasileiros lá. No Japão, já existem projetos de lei para cobrar que os dekasseguis saibam ler e escrever japonês", diz. Diante dessa nova realidade, a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa criou uma comissão especial sobre o tema. "A pauta já se estende a cobranças políticas entre os países", afirma.
"Há mais de 90 escolas brasileiras no Japão. E algumas são até credenciadas pelo Ministério da Educação (MEC), mas têm mensalidades caras. Os dekasseguis desempregados passam seus filhos para as escolas gratuitas japonesas. Essa mudança causa um problema sério de adaptação", constata. Com a interrupção da formação das crianças, a educação fica postergada. "Por outro lado, as que ficam no Brasil, também sofrem a ausência dos pais".
Em outro aspecto, está a questão da aposentadoria. "O brasileiro no afã de ganhar mais, evita pagar a contribuição à Previdência Social, assim, fica sem direito à assistência médica, seguro-desemprego etc. "Portadores de Aids, por exemplo, nessa situação, são obrigados a voltar ao Brasil, porque não recebem tratamento lá", diz. E o dekassegui, ao envelhecer e retornar ao Brasil, se depara com mais um problema, segundo Yoshioka - a falta de chance no mercado de trabalho.
Diante de todos esses percalços, muitos dekasseguis partem para a naturalização japonesa, como estratégia de sobrevivência. "A legislação brasileira não obriga que renuncie à nacionalidade brasileira", explica. Sucena Shkrada Resk
25/05/200819:26 Especial Brasil/Japão - O fenômeno dekassegui, por Sucena Shkrada Resk Estudos mais aprofundados sobre o processo emigratório de dekasseguis ao Japão foram iniciados na década de 90. "Hoje os políticos já colocam o tema na pauta - como "gravíssimo"", diz a professora colaboradora da Unicamp, a socióloga Lili Kawamura. Estima-se que até hoje 310 mil pessoas tenham feito o caminho do Brasil ao arqupélago. "A trajetória faz parte do processo de globalização, que infere novas tecnologias, e possibilita que possam ir e vir continuamente. Isso se chama movimento internacional circular", explica.
De acordo com o levantamento elaborado pela especialista, de 1993 a 2003, o princípio dos chamados 3 ks (pesado, sujo e perigoso) norteou o trabalho desenvolvido pelos brasileiros no Japão. "Mas eles introduziram mais uma definição - muito exigente - situação que detestavam", comenta.
No contexto econômico, a década de 90 representou um desenvolvimento galopante, segundo ela. "Mas faltava mão-de-obra para chão-de-fábrica. O envelhecimento da população, a alta escolaridade e ausência da participação das mulheres no trabalho fazia com que houvesse dificuldade para preencher cargos de baixa escolarização", diz a pesquisadora.
Então, surgiu "uma visão equivocada" de que os nikkeis e nisseis seriam semelhantes aos japoneses. "O projeto do governo japonês facilitou a entrada, com a emenda de lei da emigração, favorecendo até a terceira geração de descendentes. Daí foi um boom emigratório", conta Lili Kawamura.
Como a economia brasileira passava por uma fase crítica à época, com inflação e desemprego, isso facilitou a ida ao Japão. "Nas fábricas, exerciam funções repetitivas e tinham de seguir as regras e normas expostas em letreiros e luminosos. Não havia o requisito básico de se saber japonês. A função era semelhante ao do peão no Brasil", explica.
A pesquisadora faz um parênteses e explica que a expressão dekassegui originalmente surgiu do processo migratório japonês de pessoas do Norte e Sul, que seguiam ao centro do país, sazonalmente. "Como o objetivo dos brasileiros originalmente era o mesmo, de ganhar dinheiro, e voltar ao local de origem, também receberam o codinome", diz.
Com o passar do tempo, os problemas de adaptação apareceram. "Apesar de o brasileiro ser flexível, não combina com as regras japonesas", afirma a professora da Unicamp. O resultado é que hoje há uma complexidade da posição dos brasileiros no Japão. "Existem algumas exceções, em que saem da condição de operário, para serviços intermediários, como intérpretes em escolas", diz.
O fenômeno dekassegui também contribui para a presença de produtos nacionais vendidos em redutos brasileiros, devido ao crescimento desse mercado próprio. São restaurantes, lojas..."Tem até shopping center, pequenas fábricas alimentícias, clube de futebol infanto-juvenil. De Minas Gerais, por exemplo, há várias filiais de uma escola que se instalou no Japão", explica a pesquisadora.
Na ponta oposta, há os sem-teto, que desempregados e sem possibilidade de voltar com recursos próprios, ainda enfrentam a falta de visto de permanência. "Vivem debaixo da ponte, local que limpam durante o dia. Organizações japonesas os ajudam para alimentação. Alguns dormem de favor em carros de japoneses, enquanto procuram emprego. Daí surge um sentimento de vergonha de voltar ao Brasil", afirma Lili Kawamura. O conjunto dessas situações reflete também condições de desigualdade social, que também são presenciadas no Brasil.
O mapa dos dekasseguis
A primeira cidade japonesa, com presença brasileira marcante, é Oizumi. Lá existe a "Brazilian City". Outras são Homi Danchi, Ota, Hamamatsu e Toyota. "A expansão da imigração também atinge Tayohashi, Komaki, Nagoya, Shojiri, Nagano e Matsumoto. Mas é possível encontrar brasileiros em todo Japão", afirma a professora.
"Há a preocupação de formação de guetos, por causa deste aspecto predominante de transitoriedade. Os próprios japoneses apresentam uma reação de "medo" a esse fenômeno. E os dekasseguis, quando voltam ao Brasil, também se defrontam com dificuldades".
Um ponto que exige maior atenção, segundo ela, é o destino dos filhos desses imigrantes, nesse processo de transitoriedade. "Não existe uma política própria para a formação desses jovens. Isso acarreta, em muitos casos, a marginalização. Somente as que são japonesas (nasceram lá) têm melhores chances", diz.
Questionamentos
A socióloga começa a analisar um novo fenômeno. "Há uma tendência de brasileiros, que conseguiram subir na escala de emprego, querer permanecer no Japão. Ao mesmo tempo, os dekasseguis contribuem à transformação dos padrões culturais , que afetam os grupos com os quais convivem. "Isso se percebe nos mangás, na cultura pop, nos brinquedos e tecnologia", resume. Sucena Shkrada Resk
25/05/200814:25 Especial Brasil/Japão - A democracia das relações, por Sucena Shkrada Resk A historiadora da Universidade de São Paulo, Célia Sakurai, autora do livro "Os Japoneses",afirma que uma das maiores contribuições da imigração ao Brasil foi a da relação entre japoneses de províncias diferentes, que antes não tinham chance de manter contato, por causa da rigidez cultural no Oriente. Com isso, as diferenças regionais começaram a se dissipar. "O nikkei carrega em si esse lado de cunho racial. É importante amadurecer essa relação inter-étnica", analisa.
O desembargador aposentado Kazuo Watanabe, da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, analisa que por causa dessa abertura de relações, a comunidade japonesa está comemorando o centenário da imigração, mais do que o próprio governo japonês. "O que importa para nós é o fato de ter sido estabelecido um vínculo humano, por isso, a mídia brasileira dá ampla cobertura, enquanto que a japonesa, não", afirma.
Mas Watanabe considera que os japoneses, apesar dessa assimilação cultural, poderiam se expressar mais e passar seus conhecimentos aos brasileiros, como no caso da soja. "São envergonhados. Não transmitem, por exemplo, tudo das técnicas de alimentação, que seria muito útil à população mais humilde. O país é uma dos maiores exportadores e não consome a soja direito. Além da proteína vegetal, é rica em outros nutrientes", fala.
O fantasma da segregação
Para a socióloga da Universidade de Campinas (Unicamp) Priscila Nucci, o Brasil, apesar do status democrático, ainda mantém um projeto integracionista excludente. "No caso dos japoneses, foi de uma forma sofisticada", diz.
Segundo Watanabe, embora haja esse critério de exclusão, hoje os descedentes de japoneses são mais aceitos do que outras etnias do Oriente. "Mesmo nos EUA, a discriminação é mais aberta, os japoneses são colocados na categoria de asiáticos", fala.
Watanabe conta que Durante a 2ª Guerra Mundial e pós seu término, realmente havia um movimento anti-nipônico no país. "Já em 62, quando prestei concurso para juiz de Direito, por exemplo, muitos diziam que eu não iria entrar, e consegui na segunda tentativa. Já o preconceito se dava quanto à mulher na magistratura, que só veio a ingressar nos quadros, 19 anos depois", afirma.
Mas nos anos 70, um novo "surto" de movimento anti-nipônico começou a surgir, segundo ele. "Havia alguns casos de empresas japonesas, que não aceitavam os dekasseguis Cheguei a me reunir com um grupo de amigos para combater esta postura", conta
Sucena Shkrada Resk
25/05/200811:01 Especial Brasil/Japão - O que é a colônia hoje?, por Sucena Shkrada Resk :"Desde a década de 70, a colônia japonesa não existe como tem sido conceituada". Essa análise é do desembargador aposentado e professor de Direito, Kazuo Watanabe, da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. O magistrado, que tem em seu currículo, participação importante na revisão do Código do Processo Civil e no ante-projeto do Código de Defesa do Consumidor, entre outros trabalhos, é defensor de que a comunidade nipo-brasileira é, acima de tudo, brasileira, apesar de elementos culturais diferentes. Recentemente colaborou na produção do livro "O Nikkei no Brasil", coordenada pelo professor Kiyoshi Harada.
Segundo ele, o primeiro passo é compreender a história da imigração. "Em 18 de junho de 1908 chegaram 781 imigrantes e, antes da 2ª Guerra Mundial, já eram 197 mil. Posteriormente, de 52 a 88, vieram mais 53.555 japoneses, totalizando cerca de 250 mil pessoas", diz. Watanabe fez um levantamento baseado em dados colhidos pela professora da USP, Célia Sakurai, que é uma das maiores especialistas no tema nikkei, no país, entre outras fontes.
No período antes da 2ª Guerra, o cenário era predominantemente rural, principalmente na lavoura de café, entre outras. "Havia uma grande dificuldade quanto ao idioma, usos e costumes, condições precárias de habitação e salários ínfimos. Na segunda fase, os japoneses e descendentes começaram a arrendar terras e adquirir pequenas propriedades", conta.
O magistrado se recorda de sua própria origem, na cidade de Bastos, no interior Paulista. "Lá a sociedade colonizadora japonesa adquiriu terras, as transformando em um núcleo urbano, e a minha família estava entre eles", diz.
Cem anos se passaram e a transformação dos traços étnicos e culturais vieram com os nikkeis. "No primeiro período havia uma existência sociológica concreta da colônia, uma maior identidade e redes de associações. Mantinham-se escolas, ligas esportivas e espaços de lazer próprios. Com o término da 2ª Guerra e a derrota do Japão, houve uma transformação e a assimilação dos hábitos da comunidade brasileira", diz.
O chamado "abrasileiramento" dos imigrantes japoneses ocorreu, apesar do vínculo sentimental com origem nas décadas de 40 e 50. "Com isso, veio a tarefa de educar nisseis e sanseis (netos), que foram às universidades e, em muitos casos, atuando com sucesso na sociedade brasileira", afirma Watanabe. Dentro desse contexto, seu parecer leva à seguinte conclusão - de que todos hoje são brasileiros.
"Em 1944, 41% da comunidade nikkei eram de sanseis e o casamento inter-étnico representava cerca de 50% das relações. E esse índice aumentou de geração para geração", fala.
De acordo com o desembargador, os filhos mestiços atualmente são aproximadamente 400 mil pessoas. "Devem ser considerados nikkeis. Não dá para ter só o critério racial, mas cultural de valor assimilado. Até mesmo os cônjuges brasileiros, nesse aspecto, podem ser considerados da colônia", considera. Com isso, a população, em sua análise, passaria de 1,5 mil a 1,8 mi pessoas.
Em sua opinião, existe uma força "centrípeta" no Brasil, tendo como exemplo os bairros orientais - com cunho principalmente comercial. "Mas não são para auto-defesa da comunidade", diz. Watanabe afirma que o processo de mestiçagem é natural e cita como exemplo a trajetória dos próprios portugueses. "Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda já trata deste tema, sobre o início da colonização do país. O mesmo faz Caio Prado Júnior, que escreveu a História do Brasil Contemporâneo".
Watanabe conta que em 1997, estimava-se que havia 1,4 mi imigrantes e descendentes no país. "Hoje, devem ser 1,5 mi", afirma. Segundo o desembargador, o esforço dos "velhos" imigrantes não foi em vão. "Investiram na educação de seus filhos, que trouxeram frutos", afirma.
Como exemplo, Watanabe cita os seguintes números da presença da comunidade nipo-brasileira, no estado de São Paulo:
Professores em universidades...
Universidade de São Paulo (USP) - 324 (incluindo aposentados)
Universidade de Campinas (Unicamp)- 65
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - 40
Universidade Federal de São Carlos - 23
Universidade Federal do ABC - 8
Universidade Estadual Paulista (Unesp) - 143
Área militar:
181 tenentes p/patentes acima
Reserva - 119
Aeronáutica - 119
Exército - 152
Magistratura - 50 juízes
" no Trabalho - 21
Ministério Público - 63
na Área Federal - 14
Procuradores do município de São Paulo - 20
Procuradores do Estado - 61
Fazenda Nacional - 23
Em efeito reverso, hoje, no Japão, existem 310 mil nipo-brasileiros. "Já mandamos para lá muito mais do que em 100 anos de imigração no Brasil E esse processo deve ser analisado com mais atenção", alerta.
Sucena Shkrada Resk
24/05/200816:05 Especial Brasil/Japão - Os japoneses na literatura brasileira, por Sucena Shkrada Resk "Amar, Verbo Intransitivo", de Carlos Drummond de Andrade (1927); "Marco Zero - 1 e 2", de Oswald de Andrade (1943 e 1945) e o "Sol se põe em São Paulo", de Bernardo Carvalho (2007), são as três obras, que a conferencista Berta Waldman, especialista em Teoria Literária da USP, triou para representar a inserção japonesa em um período de 80 anos de literatura brasileira. Nessa análise, ela destaca a importância da mudança significativa da valorização dos personagens, do Modernismo à fase contemporânea. O romance quebra paradigmas com o passar das décadas.
No clássico de Drummond (1902-1987), o serviçal japonês Tanaka contracena com sua antagonista, a governanta alemã, estando numa posição hierárquica submissa, em que divide o trabalho e a obediência. "São inimigos de dia e companheiros à noite, quando falam mal dos patrões", resume Berta. Segundo a professora, neste romance, cada um dos personagens se considerava dono dos patrões a quem trabalhava - os Souza Costa. Numa forma metafórica, define as duas personagens como tigres japonês e alemão, em conotação ao tigre, presente no poema de Castro Alves.
Em "Marco Zero - A Revolução Melancólica", os japoneses são inseridos por Oswald de Andrade (1890-1954) no contexto rural junto a outros imigrantes, no período da crise da monocultura cafeeira, em 1929, quando há a quebra da Bolsa de Nova York. "Nesta obra, são expressos sentimentos ambíguos, de que o japonês consegue na terra mais resultados do que outras nacionalidades. Ao mesmo tempo mostra o encontro de um homem negro com uma japonesa, que é indício da miscigenação", explica a especialista. Já na versão 2 - "O Chão", o pano de fundo é o período do Estado Novo e da repressão aos comunistas.
Os caminhos da narrativa dão uma guinada de 180º, no romance contemporâneo, de Bernardo Carvalho, em que há uma outra ótica mais inclusiva sobre a presença japonesa. "Todos os personagens são japoneses e a história central é de Setsuko, uma senhora japonesa da Liberdade, que precisa descobrir a história de sua vida...".
O narrador, que é um publicitário desempregado, se esforça em desvendar o mistério, e acaba virando personagem. E toda a narrativa ocorre em São Paulo, Promissão e Tóquio, destacando a cultura japonesa.
"O que percebemos nesta trajetória de 80 anos é que o padrão xenófobo das primeiras décadas é quebrado com O Sol se põe em São Paulo. Nessa nova leitura, Bernardo Carvalho passa a idéia de que o Japão também é aqui", fala Berta Waldman. Sucena Shkrada Resk
24/05/200809:30 Especial Brasil/Japão - Rosa de Hiroshima...os japoneses na lit.brasileira, por Sucena ShkradaResk O silêncio respeitoso "disse" tudo. Assim cerca de 50 isseis e descendentes brasileiros e de outros países do cone Sul reagiram ao fim da execução da música "Rosa de Hiroshima", na voz de Ney Matogrosso, no Centro de Convenções do Memorial da América Latina. A cena foi um dos momentos marcantes do Simpósio Internacional Presença Japonesa na América Latina, no último dia 20.
Com os ouvidos atentos e olhos fixos e marejados na letra de autoria de Vinícius de Moraes (1913-1980), estampada no telão, a maioria da platéia, formada por respeitados representantes da comunidade japonesa, manifestou um dos momentos mais emocionantes, que flagrei como cidadã e jornalista, nos últimos tempos. As expressões de seus rostos demonstravam uma viagem no tempo e a quilômetros de distância, até 6 agosto de 1945, quando uma bomba lançada pelos EUA destruiu 150 mil vidas e deixou seqüelas sem precedentes à população da cidade japonesa de Hiroshima. Três dias depois era a vez de mais um crime contra a humanidade, em Nagasaki. Deflagrava-se o fim trágico da Segunda Guerra Mundial.
A reprodução desse clássico da Música Popular Brasileira (MPB) - um poema de Vinícius de Moraes, musicalizado por Gérson Conrad, dos Secos & Molhados - ,com certeza, deve ser eternizado para as próximas gerações.
Rosa de Hiroshima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
A escolha dessa música de 1973, que encerrou o painel "Terra à Vista: anotações sobre a presença japonesa na literatura brasileira", foi do professor Francisco Assis de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP). O historiador relativizou à composição ao processo imigratório. "Alguns sobreviventes de Hiroshima/Nagasaki vieram para o Brasil nas décadas de 50 a 70. Em 1984, foi formada a Associação de Vítimas da Bomba Atômica do Brasil, com 17 associados. Hoje são 135, que ainda lutam pelos seus direitos com auxílio do governo japonês", conta.
Ainda destacou a presença da cultura e de "personagens" japoneses em obras do autor concretista Haroldo de Campos (1929-2003), com traduções de haikais ou haikus (poesias curtas de origem japonesa), desde a década de 50, quando começou a aprender o idioma, do qual foi um importante tradutor. E de Paulo Leminski Filho (1944-1989). Esse último traduziu o escritor Yukio Mishima e em 1983 publicou a biografia de Bashô, poeta budista do século XVII, entre outras obras.
Sucena Shkrada Resk
23/05/200817:23 Especial Brasil/Japão -O orgulho de ser imigrante, por Sucena Shkrada Resk Texto:"Eu sou imigrante japonês (a afirmação é feita com um tom todo especial...). Vim em 1936, com nove anos para o Brasil, e fui puxador de enxada, como meus pais. Não me esqueço das dificuldades dos primeiros tempos em ir para escola. A gente andava muito e precisava procurar onde tinha capim para não queimar a sola dos pés", recorda emocionado, o engenheiro hidráulico da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, Kokei Uehara, 80 anos.
Segundo ele, essa trajetória de sacrifícios foi importante para a sua formação como cidadão. "A contribuição dos isseis e nikkeis à educação foi primordial na formação das novas gerações. Se conseguimos estudar, devemos tudo isso a eles e aos nossos primeiros professores, que nos apoiaram a seguir, desde a educação básica até o ensino universitário na USP (única universidade gratuita) na época. E o grande problema do Brasil hoje é justamente a educação básica", considera o professor, que é um dos maiores especialistas em hidrelétricas e barragens no Brasil.
Com fala mansa, esse senhor de cabelos grisalhos, e de convicção inabalável, confessa não se arrepender de um único minuto de sua história de vida. "Graças ao esforço dos velhos imigrantes, estamos aqui. Usávamos camisas feitas com saco de farinha, que era a melhor roupa que tínhamos. Tínhamos cheiro de roça com muito orgulho. Por causa disso, hoje muitos descendentes têm sucesso e andam engravatados", afirma.
Nesse período difícil de assimilação de uma nova vida, Uehara conta que o principal legado, como o de outras comunidades japonesas, foi no campo da agricultura (cultivo de hortaliças, legumes, cereais e frutas). "Mudou os hábitos de alimentação brasileira para melhor. Antes da imigração, geralmente as pessoas ganhavam maçã, por exemplo, quando ficavam doentes. Hoje se consome em qualquer lugar de São Paulo e do país", diz.
Sucena Shkrada Resk
23/05/200812:07 Especial - Brasil/Japão - Quem pensa na antropologia cultural?, por Sucena Shkrada Resk O cientista social e político, especialista em Línguas Modernas na Universidade de São Paulo (USP), Koichi Mori, cobra uma posição acadêmica mais incisiva entre os pesquisadores sobre os nikkeis. "Falta um projeto internacional na América Latina", afirma. Segundo o especialista, que também é pesquisador do Ministério da Educação e Ciência do Japão, é preciso que a Ciência abra os horizontes de atuação. "É importante saber como cada nação contribui para a modernização de cada país. Só assim, é possível pensar como é o seu papel", diz.
De acordo com o especialista, as primeiras iniciativas de pesquisa no Brasil quanto à contribuição japonesa e de seus descendentes ocorreram na década de 40, com a Escola de Sociologia. "Posteriormente foram realizadas outras pesquisas no Amazonas e sobre São Paulo, com o foco na aculturação, mas não houve troca de informações", afirma.
A partir da década de 70, Mori conta que a atenção foi voltada ao ponto de vista da etnicidade, das religiões e da questão dos dekasseguis. "Na USP, há 15 teses de mestrado e doutorado a respeito. Mas é preciso mais projetos, incluindo outros países", considera.
O especialista, a partir de 1995, iniciou uma pesquisa sobre a culinária japonesa no Brasil. "Sobre o sushi, sashimi e a presença dos "sushi-bar", que já são mais de 600 em São Paulo. Mas é importante destacar que já sofrem a influência da aculturação brasileira".
Para o professor Mori, na atualidade, no entanto, não se pode restringir o tema somente à preservação da cultura japonesa. "Outro ponto importante é estudar o fato de muitos dekasseguis estarem entrando em processo de naturalização, e que enfrentam problemas de adaptação de seus filhos, entre outros. Falta uma visão transnacional. Os dois governos precisam criar uma política, para que nikkeis e dekasseguis vivam melhor", considera.
Sucena Shkrada Resk
23/05/200812:06 Especial- Brasil/Japão - A contribuição dos filhos da Terra do Sol Nascente, por Sucena Shkrada Resk Daqui a 50 anos, o Brasil irá comemorar os 150 anos da Imigração Japonesa, como acontece hoje aos "100 anos"? Esse é um questionamento que paira entre representantes da comunidade que vive no país, e norteou as principais indagações presentes nos dois dias do Simpósio Internacional Presença Japonesa na América Latina, realizado neste mês, no Centro de Convenções do Memorial da América Latina, em São Paulo. A dúvida é pertinente, já que os últimos representantes dos isseis (primeira geração de imigrantes) e nikkeis vêem que a partir das atuais gerações de nikkeis, sanseis (netos) e yonseis (bisnetos), os vínculos com as raízes de seus ancestrais se diluem com o tempo. Um processo que não se restringe somente aos nipônicos, mas é reincidente também em outras etnias mundiais, presentes no Brasil, e em outros países do mundo.
Alguns especialistas denominam esse fenômento, de aculturação, tendo em vista que houve a fusão de duas culturas, surgindo em tese, uma terceira. Valorar esse processo como "bom" ou "ruim" não é a questão principal. "O desafio é identificar diversidades e prioridades e difundir realidades históricas às novas gerações", fala o presidente da Associação Pan-Americana Nikkei, Felix Kasamatsu. A entidade foi criada em 1981, no Peru, e é regida pela Convenção Pan-Americana Nikkei, constituída por 11 países, entre eles, o Brasil.
Segundo ele, estima-se que hoje há mais de 3 milhões de nikkeis espalhados pelo mundo, sendo que 2,5 mi no continente americano. "Mais da metade está no Brasil, seguido pelos os EUA, Peru e Canadá, entre outros países", diz. Apesar dessa cifra considerável, é uma minoria comparada a outras etnias.
De acordo com a análise de Kasamatsu, a partir do momento em que os nisseis começaram a ter uma educação mais local, os sunseis cresceram num mundo "mais interdependente". "Por isso, no campo da educação, é importante revalorizar os atributos nikkeis, que envolvem disciplina e educação ao trabalho. Na AL, principalmente, houve uma contribuição ímpar à agricultura e pecuária, e ao setor de maquinários etc. Foram pioneiros no cultivo da soja, das hortaliças, na área da floricultura. A antiga Cooperativa Agrícola de Cotia foi um exemplo de cooperativismo regional", relata.
A entidade criada por 83 lavradores em 1927 chegou a reunir 16 mil associados e mais de 10 mil funcionários, e atravessar décadas até 1988, quando quando encerrou suas atividades, devido à falência. Mas esse fato não desmereceu sua história de pioneirismo no país. Na América do Norte, a principal contribuição dos japoneses e de seus descendentes foi no setor automotivo.
O Peru foi um caso ímpar, no campo político, com o engenheiro agrônomo especialista em Física nipo-peruano Alberto Fujimori, que ficou no poder (1990-2000). Independente de sua origem, dividiu opiniões no mundo positivas e negativas, desde o campo macroeconômico à forma de regime autoritário. Depois de asilar-se no Chile e ser extraditado ao Peru, hoje o ex-presidente está na sede da Divisão de Operações Especiais da Polícia Peruana, sob acusação de violação dos direitos humanos.
"No campo empresarial, vemos na atualidade, que existem questões de nacionalismos e preconceitos que afetam os asiáticos, de uma maneira geral", afirma Kasamatsu.
E na cultura, arte, esportes e religião, o legado dos "filhos da Terra do Sol Nascente" - como são identificados os japoneses, é incalculável. Trouxeram, acima de tudo, o hábito alimentar de se comer frutas, verduras e legumes ao cardápio brasileiro, muito além do sushi e sashimi. Com a sutileza do bonsai, da ikebana e demais artes orientais mostraram como é possível proporcionar harmonia pelas mãos. No campo dos esportes, as artes marciais, o beisebol e as práticas de relaxamento foram introduzidas no modo de vida nacional. E muitos brasileiros e nippônicos se identificaram com a filosofia do Budismo e Sintoísmo. Uma viagem pela história...
Segundo o presidente da Associação Pan-Americana Nikkei, o percurso histórico da imigração japonesa nas Américas teve início em 1878, no Havaí. "Depois seguiu à Costa Oeste dos EUA e ao Canadá. Na AL, os primeiros 34 imigrantes chegaram a Chiapas, no México, em 1897. No ano seguinte, já havia a presença deles em Cuba", diz.
No ano de 1904, é a vez do Peru receber os imigrantes principalmente em suas lavouras de cana-de-açúcar. E em 1908, chegam oficialmente ao Brasil 781 no navio Kasato-Maru (apesar de que em 1906, já terem vindo alguns japoneses morar no país). "Esses trabalhadores formaram colônias agrícolas no Paraná e em São Paulo até 1941. Depois da 2ª Guerra Mundial, a imigração cresceu consideravelmente. Nos anos 50/60, o governo japonês incentivou imigração organizada às colônias agrícolas. Nessa fase, os destinos do Pará e Amazonas tiveram destaque, além da zona de Santa Cruz, na Bolívia e Paraguai. No Chile, o processo foi mais contido, pois o país tinha mais restrições à entrada de estrangeiros.
As formas de imigração se dividiam em contratos de trabalho com grandes proprietários agro-industriais, empresas colonizadoras, de "modo voluntário" e trabalhos temporários, como funcionários de governo, consultores, cientistas e investigadores. Sucena Shkrada Resk
11/05/200820:59 Ética, acima de tudo, por Sucena Shkrada Resk

crédito da foto: Sucena S.Resk
A jornalista chilena Mónica González Mújica, do Centro de Investigação e Informação Periodista, deu uma lição de cidadania, nesta semana, ao discorrer com autoridade sobre a importância da ética, do estudo e da seriedade ao exercício da profissão, independente de regimes, durante o Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia, realizado em São Paulo, pela Revista Imprensa. Sem se intimidar, questionou o poder econômico sobre a mídia.
"Podemos fiscalizar - como o quarto poder - e observar o funcionamento de muitas áreas da economia, sem ter conhecimento especializado? - Não. Apesar do término da Ditadura, existe um mecanismo mais sofisticado e complexo. Houve somente a transformação "do rosto da miséria...Apesar do crescimento e da democracia, há um poço profundo de violência social hoje".
Na sua opinião, o prazer da investigação é imenso, desde que o profissional não pense em seu ego, mas no leitor, para que sejam quebradas as barreiras da informação. E nesse exercício, a palavra-chave é "checar". "Quando vejo o rosto agradecido de um cidadão, sei que trabalhei direito", afirma a jornalista veterana, que traz uma bagagem respeitável de décadas, desde o período conturbado da ditadura Pinochet.
Segundo Mónica, não há mais espaço para o jornalista que se coloca em um pedestal - quando acha que é o porta-voz da verdade. "Se não há publicidade, os veículos não têm como subsistir. Mas isso não exime que eu investigue as pressões subterrâneas sobre a informação. A questão é persistir na veracidade", afirma.
"O modo de vida da sociedade cada dia tem menos liberdade para o amor. Não é um problema menor. Quando falo de amor, estou tratando de comunhão. O jornalismo está ajudando para isso? Creio que não", afirma.
Na análise de Mónica, as desigualdades impostas por um sistema econômico perverso exigem do profissional, acima de tudo, persistência. "Fazer bom jornalismo hoje não requer somente valentia, mas conhecimento e gana de ter dignidade". A jornalista considera que o poder político está mais debilitado no "chamado" regime democrático, por causa da corrupção. "E por que não se denuncia quem entrega milhões? Isso revela que algumas empresas continuam com a mesma liberdade para corromper", critica.
Essa postura, segundo ela, é extremamente perigosa. "Ao omitir, estamos contribuindo para a desinformação da população". De acordo com Mónica, o desafio da atualidade é três vezes maior que na época da Ditadura. "É muito pior investigar a rede de narcotráfico. Os métodos de tortura são mais sofisticados e, ao mesmo tempo, primitivos", constata.
Mas nada justifica a alienação, em sua opinião. "O que ocorre todos os dias com a sociedade civil atenta contra nossa dignidade. E o que mais importa é nos indignarmos e termos espírito de equipe. É o motor real dos jornalistas. A experiência e a ânsia de conhecer ajuda a enfrentar os muitos poderes e a não sermos ferramentas do mercado", diz Mónica.
Uma história de luta
A vivência combativa contra a ditadura Pinochet reuniu passagens penosas à jornalista investigativa Mónica González, desde torturas à prisão. Após o Golpe Militar no Chile, em 1973, exilou-se em Paris. Lá não se deu por vencida, trabalhando como operária, ao mesmo tempo em que que fazia uma imersão em programas de comunicação para o Chile e pesquisas sobre Forças Armadas e direitos humanos. Essa trajetória lhe rendeu um Prêmio Novo Jornalismo, na categoria homenagem, entregue pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez, em 2006.
Incansável e com uma postura humilde, pleiteou recentemente uma bolsa da instituição Avina, para realizar mais um trabalho incansável - o de contar a história de mulheres do Chile (camponesas, empresárias e ministras... Enfim, um exemplo para as novas gerações de jornalistas.
Sucena Shkrada Resk
04/05/200817:04 O glossário do trabalho, por Sucena Shkrada Resk Você sabe que tipo de trabalho exerce, segundo a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT), de 1939, e regulamentações e legislações federais posteriores? Para a maioria dos brasileiros, esse é um assunto que foge da pauta cotidiana, entretanto, é um ponto determinante do exercício dos direitos humanos. Vide a situação da exploração ilegal do trabalho infantil, que arrebata milhares de crianças e adolescentes no país, apesar de a legislação em vigor determinar que o ingresso ao trabalho deve ser a partir dos 16 anos. Nem campanhas e ratificações de acordos internacionais com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) dão conta para exterminar essa chaga socioeconômica.
Segundo o secretário de Políticas Públicas da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Valdir Vicente, é importante que a população tenha a noção básica trabalhista, que nada mais é, que um princípio de cidadania. Ou paradoxalmente, de reconhecimento do desrespeito aos direitos...
Quem nunca ouviu falar, por exemplo, da situação insalubre de bóias-frias por esse Brasil? Esse é um exemplo clássico de trabalho forçado, que pode ser considerado uma versão modernizada da escravidão (trabalho análogo). Aquela, em tese, abolida pela princesa Isabel...É difícil compreender que, em pleno século XXI, pessoas são humilhadas e maltratadas, e praticamente trabalham pela comida e um copo d`água. Mas é importante destacar que o trabalho rural tem regulamentação e deve ser exercido de forma digna na relação entre empregador e empregado.
Na nomenclatura e na vida real, ainda há espaço para o trabalho penoso, geralmente manual, que atinge principalmente o público jovem, gerando doenças profissionais. "Isso acontece com quem exerce atividades em pedreiras ou em minas, por exemplo. Muitos morrem antes dos 40 anos", fala Vicente. Apesar de haver punições legais pelo descumprimento das legislações a respeito (como segurança do trabalho etc), ainda há alto índice de fatalidade, segundo ele.
Para completar o quadro das ocupações de risco, está o trabalho perigoso. Nesta categoria, são incluídos os eletricitários, profissionais que lidam com explosivos e transporte de produtos inflamáveis. Segundo o Ministério do Trabalho, esses profissionais têm o direito ao acréscimo de 30% sobre o salário, além de gratificações, prêmios ou participação nos lucros da empresa.
Quando partimos para a urbanidade, muitas pessoas confundem o significado de trabalhador doméstico. Não se restringe somente às funções da empregada doméstica ou ao sexo feminino, como equivocadamente aparenta. Neste grupo, ainda há acompanhantes de idosos, babás, caseiros, cozinheiros, faxineiros, governantas, jardineiros, lavadeiras, motoristas particulares e vigias.
Por outro lado, existe o trabalho em domicílio, que é exercido fora do estabelecimento da empresa contratante. E nesse pelotão, estão principalmente profissionais liberais, que fazem o seu trabalho em casa ou em oficina de família. O importante a destacar é que a CLT não estabelece diferença entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador e o executado no domicílio do empregado. O que precisa estar caracterizada é a relação de emprego entre ambos.
E no aspecto de jornada, há a tempo parcial, que não exceda a 25 horas semanais. E a jornada normal de trabalho é de 44 horas semanais. Bem, aí é uma outra história, já que muitas categorias excedem a esse período, com horas extras - devidamente remuneradas ou não...
Enfim, aqui está uma pequena descrição de um universo que ainda temos muito a aprender...
*informações baseadas em resumo de explicações dadas por Valdir Vicente, no último dia 28 de abril, durante o curso O Trabalho e Suas Relações, promovido pelo Sindeepres/SJSP e colhidas no site do MTE*
Sucena Shkrada Resk
04/05/200814:15 Está mais do que na hora de substituir a sociedade do ter pelo ser, por Sucena Shkrada Resk A hegemonia do "ter" na sociedade capitalista pode estar com os dias contados - Será? Essa é uma indagação permanente feita por cada um de nós nos dias de hoje. Afinal, nos últimos séculos, a ditadura do poder de consumo domina o cenário mundial, que resulta na balança desigual socioeconômica, em que 75% da produção mundial está concentrada nas mãos de 25% da população. "Mas estamos vivendo o limite do padrão "material". Há um esgotamento dessa base de bem-estar social", considera o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Márcio Pochmann.
Na atualidade, a prática de mimetismo dos países pobres e em desenvolvimento sobre o padrão dos países ricos já se configura em "mito", de acordo com o economista. "Há uma profunda concentração de renda. No Brasil, por exemplo, existem bairros que representam o padrão de riqueza x outros sob carência", diz. E não é possível passar uma borracha sobre o fato de 8 milhões de pessoas estarem desempregadas, outras trabalharem 60% a mais em horas extras, enquanto 5 mi crianças são vítimas do trabalho infantil.
Segundo Pochmann, dos anos 80 para cá, a idéia de planejamento no país foi abandonada. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro per capita é o 85º no mundo. "O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ainda é um começo", diz.
O economista discute a possibilidade de redução de jornada para 4h diárias e até 12h semanais, para que se possa abrir mais postos de emprego. De acordo com Pochmann, apesar de a jornada de trabalho ter passado de 16h para 8h, no séc XX, a inserção da tecnologia não se traduziu em aumento de sensibilidade. "Com a inovação (celular, e-mail, internet), as pessoas estão trabalhando cada vez mais, fora de seu local de trabalho. Há uma dependência de produtividade. Trabalhar em casa se torna uma arapuca", diz.
Segundo ele, para atender à clientela mais rica, o mercado de trabalho também sofreu transformação, com a figura dos prestadores de serviços. "São os trabalhadores domésticos, seguranças, cortadores de gramas, personal trainer. São cerca de 25 milhões de pessoas".
Com essa demanda por produtividade, surgem novas doenças profissionais. "Principalmente mentais. Surge uma profunda crise da socialidade, com a solidão e o individualismo. O próprio computador é um instrumento que nos basta", alerta Pochmann.
Nessa sociedade do ter, as pessoas não têm mais tempo de falar com os filhos, amigos e olhar "olho-no-olho". Há a reformatação das famílias, que se tornam monoparentais (um adulto mais uma criança). "Daqui três décadas, a estimativa de vida estimada é de 100 anos e as mulheres deixarão de ter filhos", afirma. Por essas razões, é preciso se pensar em uma nova agenda de trabalho. "Não dá para dizer que um país é uma república, com desigualdades de direitos".
Para diminuir as diferenças, o presidente do Ipea acredita que uma alternativa é a criação de um fundo público para a acessibilidade à educação. "Escola e educação não são uma fábrica de salsichas. Temos possibilidade de dar um salto, que não pode ser a educação de hoje, que não ensina para a vida", fala o presidente do Ipea.
Com a atual estrutura do modelo capitalista, não é possível difundir o padrão de consumo universalmente. "Atualmente circulam 25 mi veículos no Brasil, enquanto a população é na faixa de 200 mi pessoas. Nos países ricos, essa relação seria de 140 mi veículos para a mesma população", compara.
O caos do transporte, por sua vez, obriga o poder público a ações na área de infra-estrutura. "Os recursos saem de um orçamento contido, das áreas como educação e saúde", diz.
Outro aspecto que contribui para a crise da sociedade do "ter", segundo ele, é a questão climática. "Em todo o mundo, circulam 1 bi de veículos. Ainda há probabilidade de se inundar os países pobres, com automóveis a custo menor de US$ 2,5 mil", diz.
Caso a temperatura da Terra aumentar em 2,5º, a Amazônia poderá em 2050 virar uma savana e a Sibéria, um pântano.
"Todas essas transformações ainda têm um impacto sobre a empregabilidade, pois produz com menos pessoas. Dessa forma, se economiza mão-de-obra. Esse é o efeito perverso", constata o presidente do Ipea.
*Pochmann tratou do tema, no último dia 29 de abril, durante o curso Trabalho e suas Relações, promovido pelo Sindeepres/SJSP*
Sucena Shkrada Resk
01/05/200815:59 Pressão democrática é mais do que retórica, por Sucena Shkrada Resk "É possível sair do lirismo para o plano prático". A frase é do ex-secretário Nacional de Direitos Humanos e atual presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, o advogado José Gregori. O contexto de sua afirmação são as nuances apresentadas pelo processo democrático, e em especial, o anúncio feito pela China, no mês passado, de se dispor a dialogar com representantes do líder budista Dalai Lama sobre uma maior autonomia para a região do Tibete.
A mudança de rumos e de revisão de conceitos de regimes é uma das premissas dos Direitos Humanos, segundo Gregori. "Uma decisão pessoal e de um grupo restrito pode se espalhar como meta. Nunca me conformei que o DH ficasse só no âmbito das declarações", afirmou, no último dia 26, ao se apresentar em um painel do Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, em São Paulo.
O ex-secretário, que em 1998, foi o primeiro brasileiro a ser premiado pela ONU, pelas suas iniciativas em prol aos Direitos Humanos (DH), se diz um "constante inconformado" com as desigualdades. Hoje no âmbito municipal afirma não se desestimular. "Fizemos um levantamento bairro-a-bairro sobre como 32 itens do DH estão sendo vividos em cada um desses locais, que pode ser acessado no site da Prefeitura de São Paulo. É o SIM - Direitos Humanos (http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/sim_dh/index.html).
Segundo Gregori, a iniciativa visa facilitar aos gestores promoverem os planos de desenvolvimento locais. "É um elemento concreto e objetivo, que não pode ser contestado nem pelos economistas. Agora tenho uma planilha também com números matemáticos", diz.
O levantamento é dividido em indicadores socioeconômicos, de violência, sobre criança e adolescente e mulher e negro. Há desde percentual de pessoas com baixa renda até a comparação entre as taxas de desemprego de negros e brancos por local de moradia. Os bairros são classificados de alta até precária garantia de DH.
Nos extremos constam Pinheiros, Vila Mariana e Santana/Tucuruvi (alta garantia), que se contrapõem a Itaim Paulista, São Miguel, Socorro, São Mateus, M´Boi Mirim, Cidade Ademar e
Guaianases (precária garantia).
O que, de fato, se espera, é que os indicadores sejam instrumento de cobrança da população e utilizados, de forma consciente, pelos atuais e próximos administradores, independentemente de partidos ou correntes políticas. Afinal, não é possível mais sustentar governanças com falta de planejamento a médio e longo prazo. E a olho nu vemos essas desigualdades, que são um impacto ao exercício de cidadania.
Sucena Shkrada Resk
01/05/200814:53 É possível superar a alienação, por Sucena Shkrada Resk Legenda: David Adams, em apresentação no Fórum Cultura da Paz e Pedagogia da Convivência
créd.foto -Sucena S.Resk

A vida é muito mais do que ter o poder de consumo e uma conta bancária polpuda, do que se dedicar somente ao prazer estético, fazer compras no shopping, tomar um choppinho, assistir ao filme "cult" ou filosofar e aplicar o "sociologuês" eternamente, sem colocar em prática os conceitos mínimos de respeito à convivência.
Que bom que ainda há aqueles seres humanos -e muitas vezes, sem os canudos das universidades - que se preocupam com a humanidade e o meio ambiente, e agem muito além do argumento de seu bem-estar pessoal. Vão mais longe - têm noção sobre qual mundo vivem e quais são os problemas a serem superados. Deixam de se colocar como "ingênuos úteis" (cada um de nós já exerceu esse papel, pelo o menos, uma vez na vida) e se comportam como protagonistas. Só a tentativa já é louvável, pois quebra aquela alienação, que se tornou hoje a maior inimiga de nós, seres humanos, no Planeta Terra.
Segundo David Adams (especialista em Mecanismos Cerebrais do Comportamento de Agressão, Cultura de Paz e Psicologia para Pacifistas, e um dos mobilizadores da Unesco, da Década da Cultura de Paz e Não-violência para as Crianças no Mundo), o efeito multiplicador da união entre sociedade, estudantes e educadores, em especial, com órgãos públicos tem um poder, que não pode ser subestimado. E a América Latina pode servir de exemplo a outras nações, nesse processo. O pano de fundo potencial é a mudança de contextos geopolíticos, nesta década, que pode figurar em uma nova ordem mundial.
Para isso, é preciso reflexão, segundo o especialista. E foi justamente essa oportunidade que Adams concedeu aos presentes, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, no último dia 26, no Masp, em São Paulo. Num bate-papo interativo, criou uma hipotética carta de propostas à Organização das Nações Unidas (ONU), baseada nas reflexões da platéia. O exercício resultou na seguinte análise conjunta, partindo do reconhecimento dos problemas e possíveis soluções aos antagonismos mundiais.
Cultura de Guerrra x Cultura de Paz
Dominação x Cooperação, convivência, democracia participativa
Intolerância x Tolerância, fraternidade, respeito, solidariedade
Armas x Desarmamento
Inimigos x Amigos e comunidade
Interesses x Desenvolvimento sustentável e equitativo
Propaganda x Livre circulação de informações, compartilhadas livremente
Estratégia do Caos x Estratégia da cultura de paz
Prisioneiros x Sem prisão
Dinheiro x Dinheiro com aplicação positiva
Crença na violência x Educação para não-violência
Segredos x Liberdade
Dominação do mal x Igualdade
Ao supor que a ONU adotasse, no mínimo 8 propostas, em consenso com os 192 países-membros...Iria partir para o desenvolvimento desse novo alinhamento.
E aí, haveria o reconhecimento do fundamento dos problemas. Confira trechos da exposição de Adams sobre essa análise:
- Cultura de guerra faz parte da natureza humana?
- É uma invenção cultural de uma mesma espécie, que pode também inventar a paz...
- Por que dura mais de cinco mil anos?
- Porque tem o mecanismo do Estado para ações destinadas a manter o próprio poder (ex. na ONU, o estado falido é o que perdeu o monopólio sobre a violência - Ex: Iraque, Somália...
-Também não se deve esquecer o advento da Guerra Fria - Império Americano depois da queda do Império Soviético. E que geralmente há um período de tempo, que pode haver a ausência de poder. O colapso da URSS já havia sido previsto 10 anos antes. O dos EUA é previsto para até 2020, por especialistas.
-Então, qual é a estratégia para a preparação dessa provável transição (em andamento)?
-Não teremos mais navios atravessando os mares. Isso significa que não haverá petróleo e os caminhões não poderão circular com os produtos. Os tratores não terão combustíveis nas lavouras. As lojas e supermercados das cidades estarão desabastecidos e as pessoas migrarão ao campo.
-Se o Estado não detém poder, no nível da ONU, vai haver dependência local. Haverá muito sofrimento, mas poderemos obter algo novo, novas fontes de energia, de economia solidária, de poder local com maior participação da sociedade...
-Temos de treinar e capacitar pessoas nesse processo (menção ao processo que Paulo Freire descreveu)
-As pessoas se tornam protagonistas na tomada de decisão
-Surgem novas formas de diálogo e comunicação
-O processo se torna horizontal com bases na tradição da democracia local
-E isso traz o resto do mundo para participar. Querem ver o que está acontecendo na América Latina...
-Um incentivo baseado na coragem e criatividade.
-"Quero voltar daqui 10 anos para ver esse novo modelo de cultura de paz criado na região", finalizou David Adams.
Sucena Shkrada Resk
01/05/200811:29 A educação para o convívio entre diferenças, por Sucena Shkrada Resk "Tudo que nós sonhamos pode se tornar realidade, desde que haja a união de nossas idéias. Isso significa que há esperança". Esse conceito norteou a palestra proferida pelo historiador da Educação e criador da Etnomatemática (pioneira em dar valor a culturas tradicionais não-européias ), o professor Ubiratan D`Ambrósio, no último dia 26, no Masp, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência. O educador narrou momentos importantes da linha histórica desde a segunda metade do século XX, que segundo ele, proporcionam até hoje, um sentimento de angústia da humanidade, pelo exercício da guerra, que, por sua vez, são enfrentados por movimentos que fazem frente à política da violência.
"Com o período da Guerra Fria (EUA xURSS), surgiu o Manifesto Pugwash (1955). O apelo era que houvesse progresso contínuo em caminho à felicidade, conhecimento e sabedoria", diz. O grande questionamento era sobre o porquê de se apelar à morte para a resolução de conflitos. "E apesar da Guerra Fria não ter sido totalmente resolvida, foi ouvido o apelo", afirma.
D`Ambrósio explica que os paradoxos da civilização moderna remontam a séculos e têm sua origem - na chamada sociedade do conhecimento, desde o século XVII, que sempre teve como pivô, o fato de a Ciência evocar uma certeza de resultados e ações. "Julga-se quase infalível, substituindo e criando. De certo modo, a vida pode continuar por esses sistemas. Entretanto, significa ao mesmo tempo, a incapacidade de sustentabilidade da vida em sociedade", analisa. Diante da dicotomia, a analogia é a seguinte - "Não há vida, sem paz", afirma o professor de Pós-Graduação em História da Ciência, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Segundo ele, a ameaça da peste há 500 anos, quase dizimou a civilização européia, mas não foi uma ameaça tão grande à sobrevivência, como existe agora, com a má utilização da Ciência Moderna. "Os instrumentos intelectuais e materiais (filosofias, idéias, e partidarismos) são utilizados para promover o extermínio, embora sejam mecanismos formidáveis, se forem bem aplicados. O que falta é uma ética maior, de respeito e solidariedade da humanidade com a natureza", diz.
Nesse confronto, bombas destróem vidas, grupos destróem outros, e há uma certa aceitação disso. "Ouvimos frases como esta - O sujeito mereceu ser executado. Tal grupo mereceu ser eliminado. Existe uma racionalidade que justifica essa cultura, por isso, é urgente que se passe para a cultura de paz (que representa a união de idéias nesse sentido)", diz categoricamente Ubiratan D`Ambrósio.
A paz, segundo o educador, começa internamente em cada indivíduo. "Ele não vai precisar recorrer a drogas para sair de uma realidade interna. A paz individual é ligada à social. Não podemos viver em conflito constante com o ambiente, que seja o princípio do confronto. Por isso, educar para a paz é educar para a sobrevivência com dignidade".
"Em todas as relações humanas, há conflitos de interesses. Isso é normal, mas não pode chegar ao objetivo de se eliminar as partes envolvidas. Temos como exemplo, o clássico Laranja Mecânica (romance de Anthony Burgess, que virou filme sob direção de Stanley Kubrick)", afirma.
A educação para paz - apesar de parecer uma definição redudante para muitos - é a aceitação do convívio entre as diferenças. "Do outro time, do outro sexo, cor, língua e religião. Neste sentido, está a importância do ensino de História, no que diz respeito à humanidade X se deter a cronologias", alerta o professor.
Isso significa respeito a raízes, relações históricas emocionais, religião e sistemas de conhecimento. "Um indivíduo é diferente do outro. Preservar essa diferença é fundamental", considera. D`Ambrósio define a violência como resultado da ignorância. "Todos nós somos educadores e temos a responsabilidade de passar algo (positivo) ao outro", afirma.
"Muitas vezes os tratados mundiais são inócuos, pois justamente não solucionaram a base dos confrontos - com suas tensões, desconfiança e medo, memórias de destruição e morte....", diz. O educador cita como exemplo o Tratado de Versalhes, em 1919, o confronto entre palestinos e israelenses, entre ETA e governo da Espanha, e nacionalidades que compunham a ex-Iugoslávia.
Sucena Shkrada Resk
29/04/200818:03 Os alicerces da pedagogia da convivência são inerentes ao homem, por Sucena Shkrada Resk créd.da foto - Sucena S.Resk

Saber conviver com os conflitos e as diferenças é uma das máximas da pedagogia da convivência, segundo o escritor Xesús Jares, coordenador do Coletivo Educadores pela Paz da Nova Escola Galega, na Espanha. O especialista resume na palavra respeito, o sentido de comunidade, implícito no tema. Segundo o conferencista internacional, os marcos reguladores estão concentrados na família, nos contextos sociais de vivência, nos códigos de normas das escolas e dos meios de comunicação, além da política. "E esse aprendizado começa desde a infância", afirma.
Nesse paradigma, de acordo com o especialista, está inserido o conceito de cidadania planetária. A extensão deixa de ser somente o ser humano, para abranger os seres vivos e o meio ambiente, ou seja, o Planeta Terra. Com isso, deixamos um universo isolado para transcender. E nesse caminho, uma das ferramentas essenciais é o diálogo.
"Conviver com os outros é um contínuo exercício de diálogo, que gera a resolução de conflitos entre as partes e por meio de mediadores. Para isso, é necessário haver o desenvolvimento da solidariedade (talvez uma palavra em desuso para muitos), desde os primeiros anos de vida. Significa humanização, além da instrução para melhorar a qualidade da integração", diz.
Por meio da pedagogia da convivência, Jares destaca que é importante conhecer a origem da violência, para, dessa forma, poder combatê-la. "O lacismo é uma forma de não-violência, pois permite a liberdade jurídica e de consciência, sem impor crenças. Com esse mesmo raciocínio, também atinge as interações entre as culturas. "O ser humano é fundamentalmente cultural e mestiço", afirma.
Nesse processo de transformação de comportamento tem de haver espaço para a ternura. "A afetividade é uma necessidade fundamental dos seres humanos. E a alfabetização nesses sentimentos faz parte do processo educacional", considera. De acordo com Jares, certos problemas de disciplina têm sua origem justamente pela falta de afeto.
O perdão. Eis uma palavra indispensável à pedagogia da convivência, segundo o autor espanhol. "Não quer dizer o esquecimento da falta ou desculpa. É o reconhecimento da falta e o compromisso de não repetir a mesma ação", diz.
Sendo assim, respeito, diálogo, solidariedade, não-violência, lacismo e perdão levam à aceitação da diversidade e ao compromisso com os necessitados, segundo a tese defendida pelo coordenador do Coletivo Educadores pela Paz da Nova Escola Galega. É uma imersão que leva àquele estado tão "almejado" pelo ser humano: F E L I C I D A D E.
Mas para atingir essa plenitude, os padrões consumistas da sociedade moderna têm de ser revistos. Com isso, o imaterial se torna mais importante que o material. Nessa filosofia de vida, há espaço para a revisão de conceitos. "Por isso, o papel dos pais, das famílias e dos professores é o de educar para a esperança, que leva ao otimismo. O sistema educacional movido pela alegria e pelo descobrimento do conhecer consegue enxergar avanços nos estudantes e nos trabalhos bem feitos - que muitas vezes, passam desapercebidos no cotidiano", afirma Jares.
*resumo sobre a mensagem de Xesús Jares traduzida pela jornalista Elisabete Santana, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, realizado no último dia 26, no Masp, em São Paulo*
Sucena Shkrada Resk
28/04/200822:18 Pedagogia da Paz: os frutos da mobilização, por Sucena Shkrada Resk
´Grupo Movimento pela Paz no Grajaú' narrou sua experiência de luta, durante o Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência

crédito da foto: Sucena S.Resk
O relato de jovens multiplicadores do bairro do Grajaú, em São Paulo, comoveu a platéia formada por cerca de 300 educadores, estudantes, gestores e cidadãos comuns, que participaram do Fórum Cultura de Paz e Pedagogia da Convivência, realizado no último dia 26, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Os seis moradores da zona Sul da capital se expressaram de uma maneira incisiva - como é própria à fase do amadurecimento - e descreveram uma história de nove anos de luta contra a violência na comunidade, revelando o quanto pode ser gratificante o empenho e perseverança das novas gerações.
Os estudantes destacaram a importância do incentivo para se promover mudanças. No caso deles, a força partiu do padre italiano Paolo Parise, da paróquia local (que está atualmente em fase de estudo na Itália). E com uma seriedade - talvez imposta precocemente pelas circunstâncias da guerra urbana -, fizeram um desabafo profundo e honesto, que calou fundo entre os presentes.
"Os moradores sofriam com a violência local. Vivíamos numa situação em que não podíamos nos conformar com a realidade. Então, há 9 anos, começamos com um movimento tímido. Pedimos que uma luz nos guiasse no caminho, que nos indicasse resultados. Conseguimos reunir 7 bairros pequenos em prol de uma causa...".
"Não fazíamos barulho pela violência, mas pela paz. Pois ouvíamos barulho de tiros, agressão a crianças, mulheres. Achamos uma maneira de manifestar de forma cultural, para falar de paz, e não cruzamos os braços...."
"...Desde a pré-escola à juventude, a reflexão é importante sobre esse tema. Acrescentamos festivais de música, poesias, teatro, rap (que é a manifestação cultural mais presente no bairro). Daí, as escolas e ONGs começaram a participar. Chegou a ter 3 mil pessoas em eventos em praças públicas..."
"...Queríamos fazer um barulho que não incomodasse, porque a violência já incomodava demais. Nossa preocupação era que o movimento não fosse banalizado. Usamos flores e correntes como forma de expressão..."
"....Em 2006, deixou de ser um movimento sozinho, em uma região em que as pessoas têm medo até de falar de paz..."
"...Tivemos o apoio do Instituto Sou da Paz, e participamos do Grajaú em Rede. É um trabalho de formigas, que vale a pena. Fizemos concursos de desenhos para falar da paz. O tema deste ano é ´Paz: O movimento é da hora!'- Não é conquista permanente, mas movimento constante. Não é isolado, se faz necessário sempre. Não há idade para ser vivida e para repousar. - entonaram os jovens, ecoando a sua mensagem no auditório, em que olhares e ouvidos atentos representavam um daqueles momentos propícios para reflexão".
O grupo "Movimento pela Paz no Grajaú" representou milhares de jovens da capital, que anônimos batalham por uma sociedade mais justa, e constituíram um momento de humanização do Fórum, em que cada participante se sentiu, "em parte", representado. O evento foi uma iniciativa das Secretarias de Relações Internacionais e do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura de São Paulo e da Universidade Livre do Meio Ambiente e Cultura de Paz (UmaPaz) em parceria com a instituição Palas Athena, o Instituto Pólis, a Embaixada da Espanha, a Aecid Centro Cultural São Paulo e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura no Brasil (Unesco).
Sucena Shkrada Resk
27/04/200821:43 Parte 3-Urbanização: o exercício do questionamento, por Sucena Shkrada Resk O exercício do questionamento faz com que sejamos consumidores mais conscientes dentro do processo da urbanização. Algumas perguntas que devem ser recorrentes são - Que cidade queremos construir? O que está ao meu alcance como cidadão? E como profissional? Segundo a especialista em Arquitetura Sustentável, Daniela Corcuera, esse é um princípio básico, que deveria nortear cada um de nós na concepção da sustentabilidade.
A representante da Associação Nacional de Arquitetura Biológica define que hoje é preciso haver uma visão holística. "As diretrizes para cidades sustentáveis se norteiam pela preservação do meio ambiente, economia financeira e aumento de qualidade de vida urbana", diz. Nesse escopo, é necessário, de acordo com Daniela, priorizar os seguintes eixos:
-Preservação de áreas naturais com compactação urbana
-Quesitos como proximidade, diversidade e uso misto
-Maior eficiência energética, com sistemas limpos
-Consumo consciente hídrico, de energia
-Pensar na questão dos microclimas
-Desenvolvimento de edifícios sustentáveis
-Reúso e reciclagem
"Hoje vemos ocupações desordenadas, nos vazios urbanos, e a formação de anéis intermediários, que favorecem a ocupação clandestina, com condições insalubres e áreas contaminadas", alerta.
De acordo com a arquiteta, a área central de São Paulo, por exemplo, passa hoje por um processo de desocupação acelerado. "É preciso pensar em novamente adensá-lo, com a diversidade de uso, e ter mais respiros como a Praça da República", diz.
Para isso, não adianta haver ações isoladas, em sua opinião. Os agentes são o poder público, a mídia, a sociedade, os escritórios de projetos, incorporadoras, empresas e empresários.
"O modelo de cidade sustentável é circular, com nascimento e renascimento de recursos. Não adianta ouvir discursos como 'o córrego trouxe problemas'. O problema, de fato, são as casas que estão em locais errados", afirma. E a premissa dos 4 R(s) - repensar, reduzir, reutilizar e reciclar deve ser um fio condutor nesse modelo.
A arquiteta Daniela Corcuera alerta que não é mais possível pensar nas cidades da mesma forma. "Um por cento da superfície da Terra é ocupada por cidades, que representam 75% do consumo de energia do mundo, e são responsáveis por 80% dos gases de efeito estufa", diz. E as projeções para o futuro revelam que, se algo não for feito agora, não haverá reversão. "Em 2007, 50% da ocupação está concentrada nas cidades. Em 2050, a perspectiva é que esse percentual passe para 75%". Temos de nos preparar para esse adensamento, que será um impacto para as próximas gerações", afirma.
Os desafios, nessa trajetória, são a mobilidade, a qualidade do ar, a segurança e a qualidade de vida e da paisagem. "Considero deprimente o mecanismo de adaptabilidade do ser humano em não se indignar com essa situação. Isso não é normal, e quem faz a cidade somos nós!", diz.
*A palestra de Daniela Corcuera integrou o Encontro Desafios da Urbanidade Sustentável, promovido pela Mais Projetos, no último dia 24 de abril, em São Paulo* Sucena Shkrada Resk
26/04/200821:51 Parte 2 - Urbanização: percepções sociais, ambientais e econômicas, por Sucena Shkrada Resk Quando a gente vê os espigões e os mais diversos tipos de edificações espalhados pelas metrópoles, não tem noção de como é a rotina de muitos trabalhadores que são responsáveis pela construção. A arquiteta, urbanista e especialista em sáude ambiental, Rosana Navarro conta que o aspecto social é uma linha tênue, que está sempre na pauta dos problemas enfrentados no setor.
"Hoje é fundamental que haja a capacitação contínua das equipes nas obras. A deficiência de treinamento se tornou um ponto crônico relacionado ao segmento", afirma. Segundo ela, a falta de preparo de pessoal constatada em muitos empreendimentos acarreta problemas, que vão desde o desperdício de material, e conseqüentemente danos à natureza, até conflitos de relacionamento entre colegas e com a comunidade, fazendo o ambiente "adoecer".
Rosana diz que não são raras as vezes em que o barulho e sujeira provocados por obras espalhadas pelas cidades geram o descontentamento dos moradores do entorno. "A população involuntariamente participa da obra, por isso, é necessário que sejam diminuídos os ruídos, poeiras e efluentes. Tudo isso depende de conscientização", avalia. De acordo com a arquiteta, o mais preocupante, que geralmente fica nos bastidores dos canteiros - é a sucessão rotineira de atritos entre colegas nas obras, que em muitos casos, chegam a agressões físicas.
Para reverter a situação, a urbanista só vê uma saída: treinamento contínuo. "A proposta é que as empresas promovam um exercício de percepção entre os trabalhadores, desde o boy e operário até os engenheiros, sobre o projeto que estão construindo. Muitos trabalhadores não sabem compreender uma planta. Quando as pessoas têm consciência de seu papel e fazem o trabalho com o coração, o resultado é uma obra melhor, que por sua vez, traz felicidade", analisa. Dessa forma, diminui a necessidade de correções e alterações de cronogramas, que geralmente são conseqüências dessas deficiências de planejamento e gestão.
A partir do momento, que o sentimento de equipe aflora, com a cooperação, mudam-se os paradigmas - com o respeito interpessoal. "Como se fosse uma orquestra", diz. E essa orquestra pode atuar ainda melhor se for incentivada a contratação de pessoal que resida nas proximidades do empreendimento. "Isso evita o desgaste do transporte entre longas distâncias", observa a arquiteta.
Percepções ambientais
Ao se manter novos valores, Rosana afirma que é destacada a percepção cultural. "A equipe pode ter, a partir daí, a noção da importância de se usar eco-produtos, materiais reciclados e reaproveitados. Ainda há o restauro, que é pouco falado, mas eficiente", diz a urbanista. Outro ponto da visão sustentável é a utilização de produtos adquiridos na região. "Assim, alavanca o desenvolvimento local", conclui.
*a palestra de Rosana Navarro ocorreu, no último dia 24 de abril, durante o Encontro Desafios da Urbanidade Sustentável, promovido pela Mais Projetos, em São Paulo* Sucena Shkrada Resk
25/04/200817:32 Parte 1 - Contaminação: um entrave para a urbanização sustentável, por Sucena Shkrada Resk O principal desafio de gestores, legisladores, empresários e da sociedade é promover a sustentabilidade nos grandes centros urbanos, que cada vez mais adensados, crescem desordenadamente, sem planejamentos a curto e longo prazo, pós Revolução Industrial. Planos diretores são exaustivamente debatidos, entretanto, em muitas situações, se tornam elefantes brancos, por faltar justamente regulamentação. E nessa ciranda, surgem conflitos de competências entre os âmbitos municipais, estaduais e federal quanto à legislação ambiental, e os passivos ultrapassam décadas. Dessa forma, provocam um impacto grave para a manutenção da qualidade de vida da população.
O engenheiro civil e mestre em Tecnologia Ambiental, Marcos Moliterno, atual coordenador da Divisão Técnica de Meio Ambiente do Instituto de Engenharia, afirma que a existência de áreas contaminadas é um dos principais problemas enfrentados para se efetivar a viabilização da sustentabilidade urbana, que não pode ser tratada de forma corriqueira. O especialista apresentou um painel sobre o tema, durante o encontro Desafios da Urbanidade Sustentável, promovido pela Mais Projetos, no último dia 24, em São Paulo.
Segundo Moliterno, o registro de maior número de casos de áreas contaminadas em São Paulo, de acordo com levantamento da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) 2005, está localizado em postos de combustíveis (73%), indústrias (16%), comércio (6%), resíduos (4%), acidentes (1%) e de origem desconhecida (1%).
O engenheiro destacou que há, no Brasil, 27 mil postos de gasolina. "Todos lidam com hidrocarbonetos, benzeno, tolueno e xileno, entre outras substâncias químicas, que exigem um acompanhamento contínuo, devido ao perigo de vazamentos. E atualmente há tratamento de recuperação de áreas afetadas por contaminação, o que não havia há tempos atrás", diz.
No segmento industrial, as ocorrências estão distribuídas entre as áreas química, petrolífera, farmacêutica, de metais pesados, de indústrias têxtil, plástica e de metalurgia. "Também há casos em loteamentos, que foram fazendas e enterraram resíduos no solo", diz.
A contaminação química ainda pode partir de outros setores, como lavanderias, tinturarias e serviços de revelação fotográfica. "E um problema que pode ser grave mais para frente é o dos laboratórios clandestinos de drogas ilícitas", alerta.
Em uma outra vertente, estão os resíduos produzidos pela construção civil. "Muitas vezes, não se é levado em conta o consumo de recursos naturais, de insumos, e da logística que acarreta problemas com poluentes", afirma.
Nesse grupo de fatores, há inúmeros produtos, atividades e práticas que exigem extremo cuidado na produção, manipulação e descarte, como é o caso das baterias, adubos, plásticos, limpeza química, agroquímicos, ferros velhos, madeireiras, beneficiamento de metais, óleos combustíveis, papéis e têxteis.
Mudanças de paradigmas
O que mais pode causar espanto à maioria dos cidadãos é que, em grande parte dos casos, é possível recuperação, segundo o coordenador da Divisão Técnica de Meio Ambiente do Instituto de Engenharia. É o mais importante, prevenção - com projetos sustentáveis. Para isso, no entanto, é preciso efetivamente responsabilidade empresarial e administrativa pública. Afinal, as contaminações são caracterizadas como crimes ambientais e afetam a saúde de inúmeras maneiras e, podem, inclusive, ser letais. Isso pode ocorrer por via respiratória e pelo consumo d`água oriunda da contaminação da água pluvial, do solo da água subterrânea, de rios e de córregos. "Em São Paulo (capital), por exemplo, há muitos poços clandestinos no subsolo, que abastecem residências", diz.
"Hoje a cidade ainda tem muitos galpões industriais abandonados, porque São Paulo se tornou um município predominantemente de serviços. E as grandes incorporadoras já incluem uma cláusula, em que pagam 80% ao proprietário na aquisão do imóvel, sendo 20% destinados para possíveis remediações, se houver contaminação", explica. Aparentemente, isso é um bom sinal. Ao mesmo tempo, as empresas já se preocupam em efetivamente fazer estudos de passivos ambientais.
E quando se fala em contaminação, não se pode esquecer das que são provocadas por meio dos gases e fumaças e pelo visual agressivo. Enfim, há muito o que fazer. Empresários mais conscientes de seu papel e respeito à legislação; gestores com retaguarda mais eficaz de fiscalização; leis mais objetivas, que não gerem jurisprudências; e cidadãos mobilizados em defender uma urbanização sustentável.
Sucena Shkrada Resk
21/04/200817:21 Parte 3 - A riqueza de histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk
Um novo paradigma para a Agenda 21 - Pensar de forma local e agir globalmente. Essa foi uma das propostas discutidas na Roda de Conversa Histórias de Vida e Desenvolvimento Local, do I Festival Histórias em Movimento, promovido em São Paulo, no domingo (20).
Rui Mesquita, associado de programação da W.K. Kellogg Foundation, destacou a necessidade da intervenção da sociedade em decisões internacionais. "Além do desenvolvimento local é preciso ser ampliado ao âmbito regional e global", diz. Participantes do encontro citaram a importância de se voltar as atenções a eventos como a 5ª Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo da América Latina e União Européia, que reunirá governantes, de 16 a 18 de maio, em Lima, Peru.
O coordenador de projetos também ressaltou que é preciso rever o conceito do jovem, como um eterno educando. "Apesar da boa fé por trás dessa definição, ela se choca com outro lado da moeda. A juventude está aqui para realizar seus sonhos e seus projetos políticos. Não é só um agente local", diz. E para exercer essa agenda utiliza o empoderamento, o associativismo e as redes juvenis. "Isso não é educação, mas uma ação política". Em sua opinião, as histórias de vida não podem ficar restritas ao ciclo juvenil. "O próximo passo é contar a história dessas redes", considera Mesquita.
O secretário de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura (MinC), o historiador Célio Turino, alerta que o desenvolvimento local não pode ser tratado isoladamente. "Senão, se transforma em guetos", diz. Turino propõe que cada vez mais, tanto os jovens, como qualquer cidadão, exercitem a expressão em primeira pessoa - (eu e nós). "É uma maneira de romper o quadro de alienação em relação ao outro, ao planeta e se perceber no mundo", afirma. Segundo ele, um case que ilustra essa proposta é o de Olinda Nova, MA, onde crianças e jovens são gestores de rádios e TVs comunitárias.
De acordo com o secretário, o MinC contribui para essa filosofia de participação, com o apoio aos projetos batizados de pontos culturais. Nos últimos 4 anos foram implementados 800 espaços no país, segundo ele. "Estamos lançando editais para mais 1,2 mil. O proponente apresenta o projeto, que tem como elemento comum, o estudo multimídia. Ao ser aprovado, recebe o valor de R$ 180 mil/anual, dividido em três parcelas", explica.
Sucena Shkrada Resk
21/04/200817:19 Parte 2 - A riqueza de histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk
"Existem convergências entre as diversidades regionais, que por meio das histórias de jovens potencializam os projetos, que podem ser integrados. Conhecer a realidade é um ponto de partida". Essa é a constatação de Patrícia Cucio, representante do Coletivo Jovem de Meio Ambiente da Cidade de São Paulo, ao ouvir os cases da pernambucana Rejane e da maranhense Mirchelândia, durante o I Festival Histórias em Movimento, realizado em São Paulo, no último dia 20. A ambientalista considera que a sua geração defende hoje uma pauta muito mais ampla, que extrapola as políticas dirigidas somente à juventude. Com isso, atinge a transversalidade.
O princípio, de acordo com Patrícia, é o desenvolvimento local a partir do desenvolvimento integral do cidadão, unindo arte, cultura, saúde, educação e trabalho. Um conceito que a maranhense Micherlândia Freitas, 19 anos, leva à risca. "Faço parte do grupo de jovens comunicadores do Fórum Jovem. Mantemos uma rádio comunitária, uma revista que publica nossas atividades e estamos divulgando o CD Diga Não ao Trabalho Escravo, nos 11 municípios que integram a rede. A mobilização ainda reúne articulações nas áreas de arte e cultura, esporte e lazer e manutenção de diálogo com o poder público.
Para Isaque Menezes, 26, do Fórum da Juventude de Recife, PE, os exemplos das jovens nordestinas revelam que, apesar de todos os problemas enfrentados na região, existe uma efervescência das recentes gerações . "Demonstram outras formas de fazer política", diz. Segundo o mobilizador social, quando o case de Rejane, PE, traz a história da monocultura (ex: cana-de-açúcar), que é muito forte na região, o questionamento é o seguinte: "Como transcender esse parâmetro de desenvolvimento? Também temos de salientar os preconceitos regionais e a concentração de renda. E a pergunta seguinte é qual é o modelo de desenvolvimento viável?", diz.
Patrícia Cucio lembra que também há a prática de monocultura extensiva, em algumas regiões do estado de São Paulo. "E enfrentamos também preconceitos - quanto à própria regionalidade local - na maneira de falar, por exemplo, dos caipiras e caiçaras", afirma. As comunidades, segundo ela, também já se mobilizam contra grandes intervenções, como é o caso do projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto.
Segundo Germano Barros Ferreira, diretor do Serta (entidade localizada em Ibirimirim, no sertão do Moxotó, em PE, a 400 quilômetros de Recife), é preciso incluir a família em todo o processo de desenvolvimento. Também é necessário ver como é a participação da escola, se é regionalizada, incluindo tópicos, como animais, plantio e geografia regional. "E não pode ser esquecido o elemento da subjetividade - que congrega valores, crenças e religiosidade, que fazem parte do desenvolvimento local, que poucas vezes, a Ciência ocidental inclui", diz.
A profissionalização das associações é imperativa, de acordo com o gestor. "Precisamos pensar no apoio neste sentido, tendo como proposta a manutenção de Arranjos Produtivos Locais (APLs), como estrutura para geração de renda", afirma Ferreira.
Sucena Shkrada Resk
21/04/200817:18 A riqueza de histórias de vida, por Sucena Shkrada Resk
Rejane vive em Bacia do Goitá, na zona da mata pernambucana. Micherlândia é uma mobilizadora comunitária de Olinda Nova, a 350 km de São Luís, MA. Em comum, essas duas jovens têm como bastidor, um Brasil de dezenas de sotaques e cores, com tons rurais e urbanos, em que cidadãos buscam a dignidade por meio da sobrevivência com a agricultura familiar. Ao mesmo tempo, se unem contra o trabalho escravo, uma chaga que invade os rincões, e é umas das marcas do processo de emigração no país. Seus exemplos e de outros brasileiros são um alerta aos formuladores de políticas públicas e gestores, que se acomodam na confinação de seus gabinetes e universo de protocolos, deixando de lado seu principal papel: ouvir, conhecer e representar a população.
Sem medo de recomeçar
Na zona rural pernambucana da Bacia de Goitá, estima-se que vivam cerca de 90 mil habitantes, em quatro municípios. Nessa região, a fonte de renda e sobrevivência de grande parte da população é rural. Uma dessas famílias é a do agricultor Luís, pai de Rejane, que com quase 80 anos, dá uma belo exemplo de cidadania, pois não teve medo de aprender a tornar sustentável seu principal ofício - o cultivo da terra. "Eu plantava cana e fazia queimadas. Era um modo errado de trabalhar", conta o camponês. O resultado eram safras fracas, que não davam para o sustento de 15 filhos. Assim, muitos deles partiram para São Paulo, para procurar melhorar de vida.
Segundo Rejane, o ciclo vicioso da pobreza foi quebrado com o apoio do terceiro setor, por meio de instituições locais e do Instituto Aliança. Assim a família aprendeu a fazer adubo orgânico e técnicas de desenvolvimento local. "Agora usamos esse adubo em nossas plantações, são produtos naturais, que conservam nossa saúde. Até paramos de necessitar do uso de medicamentos", fala seu pai.
Além do consumo para a subsistência, os produtos começaram a aumentar a renda familiar, ao serem vendidos em feiras orgânicas do Recife. E a maior satisfação, segundo o "sr. Luís", foi bem maior, já que possibilitou que seus filhos voltassem ao poucos de São Paulo.
As narrativas de "sr. Luís" e Rejane foram expostas em um vídeo-documentário da W.K. Kellogg Foundation, e revelam em poucos minutos, que quando a comunidade se mobiliza, pode ser responsável por grandes transformações. Mas isso só é um indício para um processo bem maior, que não pode eximir a responsabilidade do poder público e das empresas.
A quilômetros de distância de PE, outra história de vida enriquece a pauta pública, no MA. Uma das imagens que estão marcadas na memória da jovem maranhense
Micherlândia, de 19 anos, é o dia em que seu tio partiu para tentar a sorte em Mato Grosso, para conseguir alcançar seu sonho: comprar uma moto. "Lá , ele foi vítima do trabalho escravo e perdeu a vida, quando o caminhão em que o transportava com outros trabalhadores, caiu numa ribanceira. Ele foi o único que não sobreviveu...", conta ela. Seu relato compõe o CD "Um milhão de Histórias de Vida de Jovens - Maranhão" com mais 38 histórias de cidadãos anônimos, produzido pela ONG Formação.
A estudante, que integra o Fórum da Juventude do municipio e de mais 10 cidades vizinhas, constata que a história de seu tio se assemelha a de inúmeros conterrâneos de seu município e no entorno. "Por semana, saem de dois a três ônibus, com jovens e adultos, que vão em busca de trabalho, pela carência de oportunidades na cidade", contou no último domingo, dia 20, durante uma roda de conversa no 1º Festival Histórias em Movimento, realizado no Centro Cultural de Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha em São Paulo. O evento reuniu jovens de vários estados e foi uma iniciativa da Aracati Agência de Mobilização Social, Projeto Um Milhão de Histórias de Vida de Jovens e do Museu da Pessoa, em parceria com com W.K. Kellogg Foundation.
Mas isso não é motivo de desânimo. Segundo Micherlândia, uma de suas bandeiras e de inúmeras pessoas e instituições no MA é a luta contra o trabalho escravo no Brasil, principalmente no estado, que tem grande incidência de casos. "Muitas pessoas têm o pedaço de chão aqui, e precisa conhecer mais a realidade e ir atrás de políticas públicas para a população", considera. Ao mesmo tempo, a jovem revela esperança, ao citar o caso de Richardson, que tem perspectivas positivas de permanecer em Olinda Nova, pois persistiu nos estudos e agora está iniciando um empreendimento - uma pequena pousada, por meio de uma incubadora de empresas.
Ao ouvir os dois relatos, a gente faz uma reflexão além de nossos repertórios tão automatizados pelo mundo moderno. Poucos minutos de suas narrativas são suficientes para nutrir um mosaico de mais histórias e leituras- de personagens anônimos, que compõem o Brasil. É um momento de quebra de fronteiras de regionalidade, e dos paradoxos entre pobreza e riqueza. Afinal, cidadãos simples, que não usam o artifício da arquitetura da retórica, conseguem ser tão eficazes em seus discursos, passando seu recado em poucas palavras. Percebemos, que pobreza é não conseguir transcender e crescer diante das adversidades. Ou resumir uma ação diante da falta de um prato de comida ou de quilômetros de distância aos serviços básicos, à cesta básica e a promessas de palanque. Pobre é aquele que considera o discurso político, sinônimo de sabedoria, ou que o avanço tecnológico anda em sentido contrário à humanização e inclusão. Na verdade, pobre somos nós, que nos enebriamos na sociedade de consumo e esquecemos conceitos básicos de companheirismo e solidariedade.
Sucena Shkrada Resk
13/04/200821:53 Responsabilidade socioambiental só existe se a comunidade é ouvida, por Sucena Shkrada Resk Discursos vazios que se repetem toda vez em que se fala sobre o universo da responsabilidade socioambiental não mais são aceitos pelo cidadão comum. Afinal os "chamados" pilares dos stakeholders querem assumir o protagonismo. Na análise de
Daniela Reis, gerente de Comunicação da Vale (para a área de licenciamento ambiental), os exemplos se repetem cada vez mais em projetos nacionais e internacionais da empresa. É um processo que não tem volta. "Não dá mais para pensar que o público é somente a comunidade diretamente impactada. A pergunta que se faz hoje é - quem realmente é afetado? A resposta vem à reboque - toda a sociedade. Por isso, promover discussões pode antecipar até em 20 anos os riscos", diz a analista. Para isso, os mecanismos não precisam ser sofisticados e mirabolantes. Vale a velha e boa democracia, por meio de reuniões e audiências públicas.
Daniela afirma que as empresas não podem queimar etapas. É preciso esgotar os motivos que levam cidadãos a não querer determinado empreendimento. "Podem ser manifestações ideológicas, referentes à história da comunidade. Em Moçambique, por exemplo, uma comunidade não queria que uma árvore sagrada fosse tirada do local", conta. Já em outro projeto no Peru, a resistência era por causa da principal fonte de água de uma população. "Como existia uma preocupação com esse meio de subsistência, a empresa decidiu inserir na planta a dessalinização da água". De acordo com a gerente de comunicação da Vale, essas formas compensatórias, além das imposições das leis, são satisfatórias para ambos os lados.
No exercício de aproximação entre comunidade e empresa, a analista constata que até "o formato da linguagem, como um sotaque diferente" pode ser um fator de ruído. A experiência mostra que a "boa comunicação" não pode ficar restrita a departamentos. "Todo mundo, inclusive os engenheiros, têm de fazer esse contato fluir. O interlocutor tem de ser aceito pelos cidadãos. Caso contrário terá de ser trocado. Já tivemos essa experiência", conta.
Dentro da concepção de responsabilidade socioambiental, os embates e posições contrárias não podem ser vistas pela empresa como algo negativo, segundo Daniela. "Recentemente uma professora de Minas Gerais passou aos seus alunos do ensino fundamental informações sobre uma barragem que ia ser construída próximo à comunidade. Isso teve um efeito de multiplicação aos seus pais. Isso é sustentabilidade", afirma.
Todas essas iniciativas propiciam ajustes nas soluções e acordos, para que se evitem situações de litígios e até inviabilizações de empreendimentos. "A consciência sobre impactos (nessa leitura) vai além de empregos e impostos", constata a gerente de comunicação da Vale. A exposição foi feita pela analista, nesta semana, durante o debate Comunicação em Dois Tempos, promovido pela Fundamento Comunicação Empresarial, na Bovespa, em São Paulo.
Sucena Shkrada Resk
10/04/200811:02 O Cerrado e a sustentabilidade Crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk - 03/2008
Imagens tiradas do Cerrado- da área e entorno do sítio Cachoeira do Rosário, a 35 km de Pirenópolis, GO
  
  


 
Sucena Shkrada Resk
10/04/200810:32 Cerrado: Algumas imagens valem mais que mil palavras, por Sucena Shkrada Resk Quem não se indagou em algum momento, se está sendo politicamente correto em pagar, para poder usufruir de belezas naturais? Com certeza, esse conflito cultural sobre os limites do direito público e privado, dá um nó em nossas cabeças constantemente. Mas ao fazermos uma imersão no tripé da sustentabilidade - que tem o viés econômico, humano e ambiental, algumas iniciativas, no mínimo, nos fazem refletir. E a sabedoria da máxima - uma boa imagem vale por mil palavras - , em alguns casos, tem pleno sentido. Neste artigo, o objeto de reflexão é um passeio ecoturístico a 35 km da cidade goiana de Pirenópolis, no meio do coração do Cerrado.
Lá, o empreendedor Demócrito Pereira montou um pacote, que agrega translado, visita à Cachoeira do Rosário, com 42 m de queda, caminhadas pela vegetação nativa de Cerrado, na área da várzea do Lobo (cujos guias são moradores locais), além de um almoço típico de fazenda. O turista não paga barato - aos padrões convencionais - dos chamados passeios de um dia, entretanto, a experiência local nos conduz a um case típico de uma tentativa de turismo sustentável, que segundo ele, só é rentável, no período de alta temporada. Algo que se repete em outros locais do Brasil.
Segundo Pereira, não é fácil financeiramente manter o empreendimento, sem agredir a natureza, e ao mesmo tempo, torná-lo sustentável, já que enfrenta as burocracias legais. Está quebrando a cabeça para impor a limitação de pessoas - a chamada capacidade de carga. A sua iniciativa e desafios se repetem com modelos diferenciados de planejamento e estrutura - em outros destinos no entorno. É interessante observar, que há muitas propriedades privadas, que integram hoje o roteiro turístico local, já que a única área pública oficializada, é o Parque do Pireneus, a 18 km de Pirenópolis, que é uma unidade de conservação com 2.833,23 ha.
Dentro das limitações, o que chama atenção ao se chegar à estrutura do receptivo da Cachoeira do Rosário, é a casa do turista. Construída com madeiras reaproveitadas, no sopé da área, apresenta um detalhe importante - não tem paredes. Por quê? Demócrito explica - "Para que o visitante veja um quadro vivo de cânions, montanhas e vegetação do Cerrado". E não é que o impacto visual é esse mesmo?...É uma imagem inesquecível...
O empreendedor goiano confessa que esse aprendizado veio com a experiência adotada por seu pai - o artesão moveleiro "Roque Pereira", que ganhou tradição pelo Brasil, com a fabricação dos móveis moldados em madeiras descartadas, que seguem o design criado pela própria natureza.
A preocupação com a preservação ecológica segue nos trajetos à Cachoeira e a outras caminhadas em meio à paisagem local. Somos guiados por moradores que nasceram na região - pessoas simples e com o repertório de conhecimento da terra, que não se aprende na academia. Batendo um papo com os jovens monitores, descobrimos que alguns deles viviam antes do trabalho braçal da retirada de pedras na região - que é uma questão muito polêmica socioambiental e, inclusive, do respeito à dignidade. Nessa nova empreitada, se sentem felizes em serem remunerados, para poder mostrar o habitat onde nasceram e cresceram.
E nessa atual oportunidade de empregabilidade, colocam ao turista, de uma forma coloquial, o quanto é importante a preservação ambiental, já que lidavam há pouco, com a dicotomia de retirar bens naturais, para a indústria e comércio de pedras. O impacto ambiental dessas intervenções é possível de ser visto no caminho das estradas de terra, que leva à região. O solo desgastado e o pretume deixado, no resto da extração, é uma cena desoladora.
Enfim, quem sabe, se este empreendedor, como tantos outros, tivessem uma assistência maior das autoridades oficiais e dos especialistas, não poderia tornar essa atividade econômica socioambiental mais profissionalizada, possibilitando que os trabalhadores tivessem acesso à continuidade da educação formal e aprendizado sobre as espécimes nativas (extra à sua sabedoria autodidata), que não pode - de forma alguma - ser descartada. Aí está uma riqueza insubstituível de brasilidade.
Assim gerando mais renda, qualidade de vida e, porque não, felicidade. Afinal, nada melhor do que poder ganhar o sustento respeitando o meio ambiente, sem ter necessidade de migrar, para tentar a sorte.
Sucena Shkrada Resk
09/04/200815:55 Ciência e cidadania

Crédito da foto: Sucena S. Resk
"Como cientistas e cidadãos estamos preocupados com a epidemia que atinge principalmente o Rio de Janeiro. Mas não podemos queimar etapas na pesquisa da vacina contra a dengue. Agora iniciaremos a fase de pesquisa clínica. O tempo da Ciência é mais prolongado, e temos de avaliar todos os aspectos de segurança à saúde, antes que seja distribuída em escala para a proteção da população. O importante a alertar é que, independente da vacina, a melhor prevenção é o combate contínuo aos criadouros do mosquito Aedes aegypti".
Dr. Otávio Azevedo Mercadante, diretor do Instituto Butantan
Sucena Shkrada Resk
09/04/200815:49 Otávio Azevedo Mercadante, diretor do Butantan, fala sobre o papel cidadão da ciência
Apesar de estarmos na chamada sociedade do conhecimento, ainda existe um longo percurso para aproximar cada vez mais o cidadão comum do universo da Ciência. Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, o diretor do Instituto Butantan, Otávio Azevedo Mercadante, conta como a instituição centenária reconhecida pelo seu know-how em produções de vacinas e pesquisas busca, desde a época do pioneiro cientista Vital Brazil, estreitar este laço - por meio do contato mais próximo à comunidade. O pesquisador destaca ainda o empenho da unidade pública estadual paulista em uma das principais pesquisas em andamento hoje no Brasil: a vacina contra dengue, alertando que, tão importante quanto essa possibilidade de combate à doença, é a ação contínua de prevenção.
Por Sucena Shkrada Resk
Cidadãos do Mundo - Quais são as principais ações do Instituto Butantan hoje, no âmbito da inserção e cidadania?
Dr. Mercadante - O principal trabalho é junto às escolas, promovendo orientação em educação e saúde, a estudantes das redes pública e privada, desde a pré-escola ao ensino médio. Por ano, são atendidos aqui cerca de 80 mil alunos em visitas monitoradas, extra as visitações individuais. Desde a Fundação do Butantan, com Vital Brazil, mantemos essa filosofia. Naquela época, o foco principal era a população que trabalhava no campo, e sofria com freqüência, acidentes com animais peçonhentos.
O que chama até hoje a atenção, principalmente das crianças, são as cobras, muito mais que as vacinas (rs..). E por meio dessa curiosidade, aproveitamos para promover a educação ambiental, destacando que os répteis (como outros animais), pertencem ao meio ambiente e precisam ser preservados, para a manutenção das espécies, das pesquisas em saúde, e para a sustentabilidade do ecossistema. Passamos assim informações sobre a importância da natureza e respeito ao meio social - como a importância de jogar o lixo no lixo, manter silêncio para ouvir as orientações, e não estressar os animais. Essas pequenas dicas de convivência também fazem parte do nosso papel como cientistas.Outro enfoque de nosso trabalho são as dicas de prevenção a acidentes e primeiros-socorros.
Com o passar dos anos, nós - como pesquisadores - também fomos mudando nossos paradigmas, tanto que readaptamos os espaços físicos do Butantan para alojar as cobras, reproduzindo o mais fielmente possível seus habitats naturais, com espécies compatíveis e com poucos exemplares em cada ambiente. Isso é uma forma de respeito aos animais.
Dentro deste conceito, também deixamos de realizar as demonstrações públicas de extração de veneno (das espécies peçonhentas), porque estressa muito o animal. Afinal, não há necessidade dessa exposição, já que a finalidade é a pesquisa sorológica. E para haver o melhor aproveitamento por parte dos estudantes, são formados grupos máximos com 20 pessoas, que têm uma imersão de cerca de 2h, no Instituto.
Estamos fechando convênio com a Secretaria de Estado da Educação, para atender um total de 160 estudantes semanalmente, além de nossa demanda, que vai integrar a partir de agora, uma atividade curricular da escola pública, que envolve visitas a outros museus na cidade de São Paulo.
Tudo isso é gratificante. Toda vez que recebemos uma pessoa aqui, não é difícil ouvir - "quando eu era criança...eu vim aqui no Butantan". E hoje, essas pessoas também trazem seus filhos, netos ou alunos. A população - principalmente paulistana - tem essa experiência, que integra nossa história. Até se perguntarmos aos biólogos ou zoólogos, entre outros profissionais, que trabalham conosco, fazem alguma referência semelhante. Isso tudo nos impulsiona a qualificar cada vez mais o nosso ambiente, para atender aos visitantes.
Cidadãos do Mundo - Dr. Mercadante, em sua opinião, quais são os principais desafios da Ciência para se aproximar cada vez mais da sociedade?
Dr. Mercadante - Um ponto importante é questionar o mito do conhecimento mágico atribuído aos cientistas, que acabou acarretando esse distanciamento. Por isso, é essencial incentivar as vocações a partir da infância e juventude. Aqui no Butantan, realizamos anualmente, uma Semana da Ciência e Tecnologia, quando é organizada uma série de atividades para colocar o pesquisador em contato direto com os alunos do ensino médio. Neste momento, os profissionais mostram para que servem as aparelhagens de pesquisa, o que estão pesquisando etc. Ainda mantemos visitas agendadas ao Museu de Microbiologia, que aproxima o cidadão comum do universo científico.
Mais um aspecto que pode causar o distanciamento é a desvalorização do pesquisador, que ainda existe no país, por uma questão cultural e, até, salarial. E a ciência precisa estar mais atrelada à tecnologia e inovação. Desde os bancos das salas das universidades, o futuro cientista tem de se questionar sobre o que representa esse caminho para ele, e saber da responsabilidade social, que existe em seu papel.
Por todas essas questões, muitas vezes, a sociedade questiona por que tanto do orçamento dos Estados vai para as universidades públicas. E para que é necessário o avanço do conhecimento. Muitas pessoas não conseguem relacionar o papel do cientista com a melhoria da qualidade de vida, das condições de moradia, do ar, do transporte e no combate às doenças...
Dessa forma, a sociedade começa a cobrar mais respostas. E ao mesmo tempo, as novas gerações de cientistas também começam a se questionar sobre a importância do novo paradigma da ciência. E isso é muito positivo.
Cidadãos do Mundo - As pesquisas sobre vacinas e novos medicamentos geralmente levam anos até que os resultados possam ser usufruídos pela sociedade. Como é o caso da pesquisa da vacina contra a dengue, que está sendo realizada no Butantan. Gostaria que o senhor falasse sobre o andamento deste projeto e sobre a epidemia que hoje é um problema grave de saúde pública no país, em especial no Rio de Janeiro.
Dr. Mercadante - O essencial é que haja o controle sobre a proliferação da fêmea do mosquito Aedes aegypti, que é a transmissora da doença. Na minha avaliação, perdemos a batalha hoje, por questões ambientais e de prevenção. Durante décadas, no Brasil, criou-se uma expectativa de erradicação da doença, algo não realista, sem haver um controle maior sobre o vetor. E em 2002, houve uma grande número de casos. Diante dessas situações, o controle tem de ser imediato e contínuo.
Por parte dos cidadãos, o ideal é que o controle dos focos sejam feitos semanalmente em suas casas, e ao poder público cabe a orientação, fiscalização e ações mais efetivas para diagnóstico e tratamento de sintomas. O que a gente percebe é que o sistema de saúde e muitos profissionais não estavam preparados, principalmente no RJ.
É importante se ter em mente que um caso pode se transformar em 40 em um curto espaço de tempo. O mais grave hoje é o fato de muitos casos serem com crianças (mais sensíveis) e de dengue hemorrágica. Houve uma falha na assistência. No aspecto científico, a tendência é que se diminuam os casos, num prazo de dois meses, por causa das condições climáticas, com a chegada do inverno, quando há menos incidência de chuvas. Também muitas pessoas podem ser picadas pelo mosquito infectado, mas não contrair a doença.
A principal mensagem que posso passar é que ninguém pode se acomodar. A vacina que estamos pesquisando é contra os quatro tipos de dengue hoje conhecidos. Ela é um elemento a mais aos hábitos de prevenção, que devem ser permanentes, contra os criadouros do mosquito. A estimativa é que as pesquisas estejam concluídas em cinco anos.
Sucena Shkrada Resk
07/04/200809:03 Pirenópolis: um olhar vindo de fora, por Sucena Shkrada Resk
 
 
Crédito das fotos: Sucena S.Resk
De Ouro Preto, MG, diretamente para Pirenópolis, GO. Esse é o trajeto escolhido pelo artista plástico Mirim Santos, 33 anos, que já é uma personagem conhecida na cidade histórica goiana. Em frente à Igreja do Carmo, ele pinta aquarelas que retratam a paisagem com seus detalhes arquitetônicos e naturais das cercanias, envolta pelo Cerrado. Autodidata, ele conta que essa relação mais próxima começou, quando foi executar um trabalho de restauro, em 1997, na mesma igreja. "Depois deste primeiro contato, quis ficar aqui, porque me sinto muito bem", afirma.
Mas o mineiro, que vestiu a roupagem goiana, sem perder as raízes (quem conhece Ouro Preto compreende essa afirmação...) não se limita às pinceladas e matizes de suas obras. "Desenvolvo voluntariamente com crianças carentes, aulas de capoeira. Esse é um outro lado da situação socioeconômica da cidade, que enxergo, e tento colaborar", diz. Santos faz uma leitura sobre essa dicotomia entre a beleza e a realidade. "Deveria haver um olhar mais atento por parte dos gestores e, inclusive, turistas, para essas questões", analisa.
O artista ainda se desdobra em mais uma faceta nas noites de Pirenópolis, e toca percussão. Segundo ele, todas essas atividades o completam. E para iniciar mais um dia - revela qual é o seu segredo - "Medito às 4h da manhã", diz.
Bem, não é difícil entender o porquê de tanta inspiração. Basta abrir a janela e ver o verde que desponta no alto das chapadas e nas planícies, sob o céu de brigadeiro - que é comum no Cerrado - e ver aquelas construções centenárias - em sua maioria, bem preservadas - que dão uma sensação, que mistura satisfação e paz. Sucena Shkrada Resk
06/04/200820:21 Pirenópolis (GO) - A tradição das máscaras pulsa na Festa do Divino, por Sucena Shkrada Resk Legenda: A arte da confecção das máscaras é tradição da Festa do Divino, em Pirenópolis, GO (obra de Maria de Lourdes Oliveira Leite)
crédito das fotos: Sucena S. Resk
Papel e grude (polvilho e água) mais uma boa dose de criatividade na escolha das cores e expressões. Aí estão os ingredientes que a artesã Maria de Lourdes Oliveira Leite, de Pirenópolis (GO), usa e abusa para criar seus personagens estilizados no formato de bois, rostos e onças, destinados a compor os adereços da Festa do Divino, realizada no município, há 189 anos. A tradição portuguesa é comemorada entre maio e junho, 50 dias depois da Páscoa, e tem outros elementos folclóricos agregados, como as Cavalhadas (remete a um embate entre mouros e cristãos a cavalo), que já surtiu frutos - com a "Cavalhadinha". A versão infantil é realizada dez dias após o evento, que reúne os adultos, e perpetua a manifestação folclórica no município e redondezas.
Como na produção de peças de cerâmica, os moldes das máscaras vão ao forno, só que a uma temperatura média de 150º, para que possam ser pintadas, o que resultará no acabamento. É a união do prazer da arte com a geração de emprego, não só a Maria de Lourdes, como a outros artesãos anônimos do município.
"No meu caso, o trabalho é uma fonte de renda adicional importante ao meu comércio e já ganha reconhecimento fora do país, como EUA, Itália e Alemanha. A gente fica contente, porque os turistas estrangeiros também valorizam nossa cultura", diz.
"Eu aprendi a fazer os bonecos com uma artesã daqui mesmo, quando tinha sete anos, e não parei mais. Apesar de usar moldes, nenhuma peça sai igual a outra, porque tiro uma foto antes, para fazer algo novo na próxima", conta. Segundo Maria de Lourdes, aí está a riqueza da arte, que já está sofrendo os impactos do mercado global.
"Iniciamos uma campanha contra as máscaras de borracha, que começaram a tirar o sentido da tradição, nos últimos tempos ", diz.
Sucena Shkrada Resk
06/04/200817:56 Pirenópolis (GO) - um olhar sobre a preservação, por Sucena Shkrada Resk
Legenda: Moradora de Pirenópolis tem suas raízes fincadas no município goiano.
Contrates: Turismo em feriados muda o cenário pacato de Pirenópolis

Crédito foto: Sucena S. Resk
Uma história de cumplicidade...
Já se contabilizam algumas décadas...E a cena se repete rotineiramente pelas primeiras horas da manhã, na cidade histórica de Pirenópolis, GO. "Dona Clarice" conserva a vitalidade da juventude, no apogeu de seus 85 anos, ao sentar-se sobre a calçada de pedras de quartzito, próximo à sua casa centenária, e iniciar um dedinho de prosa com os vizinhos. A cena chama a atenção - pela simplicidade da atmosfera interioriana. É inevitável não retribuir "um bom dia" e, de repente, puxar papo, para degustar histórias, que contam um pouco da tradição local.
"O dia dos velhos é comprido, por isso, todo dia, mais ou menos às 7h da manhã, venho para cá, e assim o tempo vai passando e sou feliz", diz a tradicional moradora, que tem suas raízes fincadas no município goiano. "Meus avós nasceram aqui. Naquela época tinha muitos coronéis e fazendas, e tudo se fazia à cavalo...", relembra.
Ao recobrar suas memórias de infância, "dona Clarice", afirma orgulhosa, que Pirenópolis também foi arrojada na história do Estado. "Um dos primeiros jornais de Goiás nasceu aqui. Foi a Gazeta (Matutina Meyapontense)', conta.
A bisavó goiana construiu no município, uma longa história de vida com o seu falecido marido, criando 4 filhos com muito esforço. E, hoje, ela se diz realizada, por poder presenciar a perpetuação de sua família, que já conta com 8 netos e quatro bisnetos.
Viúva há 20 anos, ela garante que não nunca pensou em mudar de lá, em todos esses anos. "Só nesta casa, moro há 50 anos. Gosto daqui e da minhas coisas, e tento deixar tudo arrumado. O Patrimônio Histórico exige que seja assim, com janelas e portas de madeira e quadro de força escondido. Eu concordo. A minha casa tem mais ou menos 200 anos", fala.
A consciência sobre a importância da preservação é algo latente no discurso da tradicional moradora, que chegou a ser "enfermeira prática", na cidade de Anápolis, professora rural em Pirenópolis, e por mais de 50 anos, costureira - ofício do qual confessa mais se orgulhar. "Já fiz muita roupa de casamento e de mortalha...", fala.
E nesse vaivém da memória, o saudosimo bate. "As coisas estão mudando com o tempo. Tem tanta gente que veio morar na cidade, que nem conheço. O crescimento trouxe bons e maus benefícios. É importante a chegada de pousadas e restaurantes, mas o barulho é demais à noite, e ao mesmo tempo, começou a ter assaltos", afirma a moradora.
Segundo ela, com isso, hoje já não dá mais para ficar com a porta de casa aberta, como era possível há décadas passadas. "Temos guardas na rua, e há tempos atrás nem sonhávamos com essas mudanças. O progresso melhora num ponto e piora no outro", analisa a moradora.
O delicado convívio entre o antigo e moderno
"Dona Clarice" vive no centro histórico de Pirenópolis, que é formado por construções preservadas dos idos dos séculos XVIII e XIX - e conserva detalhes arquitetônicos e históricos, que resultaram em 1989, em seu tombamento, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Encravada sob a Serra dos Pireneus e distante apenas 120 quilômetros de Goiânia e a 150 km de Brasília, o munícipio goiano faz com que se viaje no tempo, quando ainda era o vilarejo de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meya Ponte. Esse perfil só é quebrado com a leva de turistas aos feriados e finais de semana, que lotam a cidadezinha à procura de história, diversão, gastronomia típica - com os famosos empadões goianos e arroz com pequi - e o turismo ecológico, já que fica em uma área rica em biodiversidade do Cerrado. Nessa hora, a constatação da antiga moradora se materializa, sendo um bom indicador para se repensar o planejamento de um turismo com bases mais sustentáveis. Sucena Shkrada Resk
01/04/200814:11 Parte 4 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S. Resk Texto:Reflexões ambientais no século XXI
O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame - autor do projeto substitutivo para a adoção do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, define o documentário “Uma Verdade Inconveniente”, do ex-vice-presidente norte-americano, Al Gore, e o relatório de Nicholas Stern, ex-chefe do Banco Mundial (Bird) e atual assessor do primeiro-ministro da Inglaterra, como alertas para que a comunidade mundial “aja” e saia do comodismo. “Stern sugere o investimento de 1% do PIB mundial na redução dos gases do efeito estufa, para evitar de 5 a 20% de emissão nos próximos 20 anos”, explica.
O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), coordenado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que reúne 2,5 mil cientistas, concluiu que o Aquecimento Global decorre de ações antrópicas (humanas). Thame questiona a atribuição da prevalência do homem como principal causador. “A questão não é ser antrópico ou não, mas agir com medidas efetivas de precaução”, afirma.
Os cenários previstos pelos pesquisadores vão desde o mais pessimista ao mais otimista, dependendo das ações de mitigação. “Para que a temperatura suba menos de dois graus, precisa haver até 2020, a redução em 25% da produção dos gases de efeito estufa, com base em 1990. Os impactos previstos nos oceanos, se a temperatura aumentar em 1,8º C, é de 30 a 60 cm, nos próximos 100 anos. “Mas nesses 18 anos já aumentaram muito as emissões”, rebate o autor do projeto substitutivo que preconiza as diretrizes do Plano Nacional de Mudanças Climáticas.
A ameaça da desertificação no Brasil, principalmente na região do Vale do Jequitinhonha, e em contrapartida, a presença de grandes inundações no país, é mais uma das prospecções ameaçadoras.
“Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por exemplo, prevê que se a elevação do mar for de 6m (como destacado por Al Gore), pode cobrir toda a região do Corcovado, Leblon, Ipanema, no Rio de Janeiro”, diz Thame, referindo-se a uma matéria veiculada na Revista Veja, em 2005. Outros pontos do território nacional, como a Ilha do Marajó, Santos e Atafona, este último, no RJ, também poderiam ser afetados.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) também estudam os efeitos de perda na área agrícola, segundo Thame. “Se subir a temperatura em 1ºC, a perda de produção de café pode ser na ordem de 23% e da soja 10%, entre outras”. E se a visão pessimista de cerca de 2º de aumento ocorrer, o processo de fotossíntese será prejudicado. “A Amazônia, dessa forma, virará cerrado ou savana”.
* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) Sucena Shkrada Resk
01/04/200814:08 Parte 3 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S. Resk Uma longa história de negligência ambiental
Desde a década de 70, se fala do problema do desmatamento das florestas, da erosão dos solos agricultáveis, da agricultura predatória, da diminuição da produção pesqueira (maior fonte protéica da população costeira) e da escassez de água. “Só não se discutia a agroenergia – que é uma pauta mais recente”, afirma o deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame.
Segundo o advogado e também engenheiro agrônomo, com o advento da Eco 92, houve a canalização de esforços no sentido de se fazer um mapeamento da situação “real” do planeta, praticamente dois séculos pós Revolução Industrial, e se começou a estudar sistematicamente o efeito estufa. “A espessura da atmosfera é de 100 km, mas 75% dos gases se concentram em menos de 12 km da superfície da Terra. Com isso, existe um efeito estufa positivo e negativo, quando os raios solares penetram nessa camada e voltam à atmosfera”, explica o especialista.
O lado negativo é provocado pelas emissões excedentes de CO2, decorrentes principalmente da queima de combustíveis fósseis; da produção de gás metano, da queima de material orgânico e do óxido nitroso dos sprays, entre outros. “Esse material forma uma camada que impede que os raios retornem à atmosfera, provocando o aquecimento. O resultado é que a temperatura média da Terra, que era de 14º C passou para 15º C”, diz Thame.
O que toda comunidade científica já constatou é que a diminuição crescente do fluxo normal desses gases pode ser desastrosa para a manutenção da vida. “Se não fosse esse fluxo, a Terra poderia ser como Marte, que não tem CO2 e mantém uma temperatura média de menos 50º C ou igual a Vênus, com cerca de 420º C”, compara. Enfim, é uma incógnita para onde caminha o futuro do planeta.
Mas nada aconteceu de um dia para o outro, como afirma Thame. “A produção desses gases começou a crescer após a primeira fase da Revolução Industrial, em 1760, com o advento da máquina a vapor. Surgiram as marias-fumaças, que precisavam de carvão e madeira – principalmente na Inglaterra e Austrália”, explica.
Na segunda fase, em 1850, o motor à combustão interna, introduz os combustíveis à petróleo e diesel. “Surge a eletricidade, que precisa de gás, carvão, madeira e petróleo. Com isso, a produção de CO2, que era de 280 partes por milhão na primeira fase, passa para 310 partes por milhão. E no século XX, depois dos anos 60 até o ano 2000, com a curva ascendente de intensa industrialização, essa proporção subiu em 17%”, alerta.
Efeitos em cascata
Nesse ciclo histórico, o que a comunidade de pesquisadores já avaliou, é que a temperatura média da Terra aumentou 0,6 º C nos últimos 100 anos e, especificamente nos pólos, a quase 2º C. “A conseqüência é o derretimento das geleiras, como na Patagônia, no Glacial Pasterze, nos Alpes, e no Monte Kilimanjaro”, exemplifica Thame. Ao mesmo tempo, outras regiões sofrem o processo de desertificação, como a Tanzânia e a África.
“Na minha opinião, é uma das piores situações. E as regiões semi-áridas dos países tropicais – como o Brasil – tendem a ficar áridas. Cada vez mais as pessoas têm de andar quilômetros. A humanidade não pode ficar indiferente a isso”, alerta.
O autor do projeto substitutivo da Política Nacional de Mudanças Climáticas lembra que em 2005, houve o reflexo da seca no rio Amazonas, depois de 100 anos. “Foi algo inesperado. Tudo isso se deve a essa variação de 0,6 º C”, considera.
O planeta começou a conviver com um número maior de ciclones e furacões, que passaram das categoria 1 e 2, para 3 e 4. “Em 2004, por exemplo, houve o fenômeno do furação Catarina”, diz o parlamentar. As mudanças também afetam os ecossistemas. “Ocorreu o desaparecimento de corais, o aparecimento de fungos resistentes e, inclusive, redução das abelhas, que já afetam a produtividade agrícola”. E o ser humano começou a padecer de doenças, que pareciam extintas. “Os vetores passaram a ter condição de multiplicação, com o aumento da temperatura”, explica.
* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) Sucena Shkrada Resk
01/04/200814:05 Parte 2 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S.Resk Mecanismos de indução
Hoje a grande indagação em todos os cantos do planeta é como induzir as ações para reverter o processo do aquecimento global. De acordo com o parlamentar Antônio Carlos Mendes Thame - autor do projeto substitutivo para a implementação das diretrizes do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, isso acontece, por meio de legislação eficiente, investimentos em infra-estrutura e fiscalização, e com a conscientização da sociedade.
“As leis têm tanto o aspecto estático e dinâmico. Esse último induz o comportamento do cidadão, que faz ou deixa de fazer algo que a sociedade considere deletério. Nós somos condenados em função dos princípios, mas o comportamento é conseqüência também de nossos valores”, avalia Thame.
Segundo o autor do projeto substitutivo sobre as diretrizes da Política Nacional de Mudança Climática, essa mudança pode ser traduzida de diferentes formas, tendo como base a mudança dos padrões de consumo estabelecidos pelo mote da publicidade. “A consciência ambiental não influencia somente o indivíduo. Esse, por sua vez, começa a cobrar que as empresas sejam ecológicas e a exigir mais ações do governo. A sustentabilidade é esse valor agregado, que une meio ambiente, trabalho e marketing, entre outras áreas”.
Mas na análise do parlamentar, a soma de todas essas ações ainda são insuficientes para remediar os efeitos destrutivos do aquecimento global. “Como diz o ex-chefe do Banco Mundial (Bird), Nicholas Stern, essa situação é resultado de uma falha de mercado, em que não se pensou nos efeitos colaterais, mas somente se levou em conta a produção e os insumos nesses últimos 240 anos”, afirma.
A mitigação, segundo Thame, só poderá ocorrer por meio de medidas mandatórias – legais – e administrativas. “Isso quer dizer ações como, incluir a desoneração na taxa de carbono, quando houver remediações positivas e investir principalmente em pesquisa. É preciso ficar claro, que um país sozinho não consegue reverter um problema global”.
* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) Sucena Shkrada Resk
01/04/200814:03 Parte 1 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas, por Sucena S.Resk Nunca se falou tanto em mudanças climáticas, como hoje. Entretanto, desde 1972, com a instituição da Declaração de Estocolmo, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) – que é considerada um dos princípios do Direito Ambiental -, esse tema tem sido discutido mundialmente com mais regularidade. “Agora, 35 anos depois, o que melhorou? – quase nada. Hoje enfrentamos dois graves problemas ambientais – a escassez de água generalizada no planeta e o aquecimento global”, diz o advogado e engenheiro agrônomo Antônio Carlos Mendes Thame, deputado federal responsável pelo projeto substitutivo sobre as diretrizes da Política Nacional de Mudanças Climáticas, que tramita no Congresso Nacional, desde 2007*.
O efeito mais grave dessas conseqüências anunciadas é o de caráter humanitário, que ele define como o risco dos “refugiados ambientais”. “Cerca de 200 mi pessoas das áreas costeiras serão vítimas das inundações, e de 30 a 200 mi correm o risco da fome, se o cenário mais pessimista ocorrer, do aumento de 2 a 3º sobre a temperatura dos anos 90”, afirma.
A conseqüência reversa dessa situação catastrófica só pode ocorrer sob o tripé da vontade política, que envolva executivo, legislativo e sociedade, segundo Thame. “Precisamos reduzir em 50% os gases do Efeito Estufa”. Para isso, tanto as nações industrializadas e desenvolvidas – que são as maiores emissoras – e os países em desenvolvimento, sem exceção – têm de diminuir o uso de combustíveis fósseis e a devastação das florestas e, ao mesmo tempo, promover a maior eficiência energética e aumentar a utilização de combustíveis renováveis.
Nesse hall dos países mais poluidores do planeta estão EUA, União Européia, Rússia, Japão, Canadá e Austrália ao lado da China, Brasil, Índia, Indonésia, México e África do Sul.
Segundo Thame, o Brasil, nesse contexto, tem a obrigação de desenvolver as tecnologias limpas. “Não precisa crescer como a China. O país tem uma matriz energética limpa, com as hidrelétricas e o biocombustível. No meio deste ano, o consumo do Etanol deverá superar o gasolina”, diz o especialista.
Por outro lado, ele afirma que não pode ser esquecido o grande passivo ambiental brasileiro – com a devastação das florestas. “Destruímos 18% da Amazônia e 4% já viraram deserto. Existe uma posição acomodada. É preciso a pressão popular sobre os dirigentes e a implementação da reforma tributária, para que seja viabilizado o investimento em energia renovável”, defende.
* O deputado federal Antônio Carlos Mendes Thame realizou a palestra sobre Aquecimento Global, na última segunda-feira (31 de março), na secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) Sucena Shkrada Resk
31/03/200814:11 Rodada Financiamento Sustentável

Crédito da foto: Sucena S. Resk
Frases:
"Não podemos nos iludir. Os conceitos ainda são marginais de que a sustentabilidade entrou na indústria financeira. O que tem de variar são as ferramentas. É preciso aproveitar, por exemplo, as tecnologias sociais, em parcerias com Organizações não governamentais (ONGs) para promover soluções inovadoras... E se fosse aplicado meio por cento do dinheiro dos fundos de pensão, por exemplo, dobrariam os investimentos socialmente responsáveis".
Mario Monzoni, coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV)
Sucena Shkrada Resk
31/03/200814:09 O financiamento sustentável além do discurso, por Sucena Shkrada Resk
O compromisso das instituições financeiras na área socioambiental é um máxima de mercado, que não tem como voltar atrás. Esse foi o eixo central da rodada Finanças Sustentáveis do evento Sustentabilidade em Pauta Internacional, promovido pelo Instituto Cultural Itaú e parceiros, em São Paulo, no último dia 28 de março.
A diretora da instituição internacional SustainAbility, Jodie Thorpe, constata que as empresas estão sendo "muito lentas" para agir e reagir na área de sustentabilidade. "Tantas ações poderiam ter evitado tragédias humanas e prejuízos econômicos, como na África", afirma. Segundo a consultora, hoje os investidores internacionais buscam mudanças a longo prazo, que envolvam ações de empresas emergentes sobre os desafios climáticos.
"O United Financial da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata de alguns indicadores de responsabilidade e governança socioambiental corporativa são importantes. No setor energético, por exemplo, avanços em questões ambientais e governamentais podem tornar as empresas mais lucrativas e de interesse de investimento futuro", diz.
Segundo Jodie, atualmente são aplicados US$ 13 tri para aumentar a qualidade de análise em investimentos sociais e para agregar valor às empresas. "No setor financeiro, os bancos também estão mudando os conceitos. No passado, viam suas responsabilidades sociais somente voltadas ao papel reciclável e à redução de gastos de energia. Atualmente avaliam que a agenda é muito mais que isso - é a responsabilidade no empréstimo", afirma.
A consultora internacional cita como exemplos a iniciativa da Morgan Stanley, ao estabelecer o critério do risco de carbono em investimentos em usinas elétricas e da adoção de um novo índice de empresas com contribuição às mudanças climáticas, pelo HSBC.
Cidadãos não querem saber de discurso de marketing
Essas transformações se devem em grande parte à cobrança da própria sociedade. Paulo Itacarambi, diretor-executivo do Instituto Ethos, diz que essa avaliação pode ser constatada nos resultados da publicação recente da 6ª edição da Pesquisa do Intituto Akatu em parceria com o Ethos - Responsabilidade Social das Empresas - Percepção do Consumidor Brasileiro. "Continua alta a expectativa das pessoas quanto ao impacto dos processos operacionais. Os cidadãos cobram a eliminação de impactos negativos e uma participação efetiva na agenda pública do bem comum", diz.
As questões levantadas, segundo ele, são o desequilíbrio social, apesar do crescimento da Economia e os valores de coesão da sociedade. "Os valores de coesão da sociedade, como integridade, respeito, honestidade estão sendo perdidos. E as pessoas têm a expectativa de que as empresas contribuam contra esse processo. Ao mesmo tempo está caindo o nível de crédito da sociedade de que as empresas vão agir", resume Itacarambi.
De acordo com o diretor do Instituto Ethos, em 2000, 39% dos entrevistados buscavam premiar as empresas. "Agora, esse percentual foi reduzido a 24%. Também caiu o número de pessoas que pensam em punir, de 35% para 27%. Está diminuindo a boa vontade da sociedade para com as empresas. O questionamento é que as divulgações são marketing puro", afirma.
Diante dessas cobranças, Itacarambi questiona os discursos socialmente responsáveis. "Muitas empresas dizem que são 60 anos socialmente responsáveis, mas a mensagem implícita é de que não vai mudar nada", diz.
No campo da administração pública, cresceu o número de pessoas, de acordo com a pesquisa, que querem que o governo regule a responsabilidade social empresarial (64%). "As pessoas acham que têm pouca possibilidade de interferir. Estamos diante de uma ameaça. No início dos anos 90, a discussão do comportamento das empresas estava na política e elas eram consideradas a fonte do mal. Veio a responsabilidade social e hoje, levam "pedrada", sem receio. Mas o perigo é se direcionar às mudanças só ao campo da política, daí fica difícil fazer as mudanças reais", considera.
Itacarambi defende que haja a reversão do fluxo de capital. "Temos de mudar o critério do financiamento das construções. Se olharmos a edificação em todo o período de vida útil (consumo de água, energia etc), os critérios serão diferentes. O mesmo princípio vale para os outros setores da economia. O mote é fazer uma atividade com retorno positivo para todos", finaliza.
O alerta do diretor-executivo do Instituto Ethos é que Os Princípios do Equador, elaborado em 2003, como um parâmetro para o setor das instituições financeiras sobre determinação, avaliação e gerenciamento de risco ambiental e social em financiamento de projetos, ainda é limitado.
O vice-presidente do Itaú, Roberto Matias, constata que há necessidade de haver atitudes mais pró-ativas no setor. "A sociedade não quer só discurso. Quem não faz seu papel deve ter algum tipo de punição. A política não deve tutelar a sociedade com relação às finanças sustentáveis", diz.
Segundo o executivo, os bancos não vão perder o atributo de fomento de investimentos, se agir dentro do equilíbrio ecológico e da responsabilidade social. "Os próprios bancos são emissores indiretos do gás de efeito estufa, com as suas inúmeras frotas de carros, viagens. Não se concebe a idéia de uma corporação eco-eficiente, sem ações básicas desde o consumo de água ao material de escritório", afirma. E sua responsabilidade vai mais adiante, ao liberar financiamentos a atividades ilegais. "Ao financiar empresas, por exemplo, que contribuem com o assassinato do rio Tietê, estamos sendo co-responsáveis".
O desgaste imposto por essa co-responsabilidade tem efeitos devastadores, de acordo com Matias. "Na área de construção, por exemplo, acho que não há quem se importe em pagar 10% a a mais para ter um imóvel melhor, do ponto de vista de sustentabilidade', diz.
Mas o caminho das mudanças é longo, na opinião de Matias. "O Itaú Cultural existe há 20 anos e não pertence mais aos acionistas e às empresas, é da sociedade. Rompeu a idéia de filantropia pura e simples e partiu para o protagonismo. Com isso, surgiu em 2003, o Fundo Itaú Social. Temos a preocupação com campanhas de consciência de crédito, de orientação contra fraudes nas transações pela Internet etc. "Esse é um pequeno pedaço da responsabilidade do serviço de crédito. Agora, em 2008, criamos o Fundo Itaú de Excelência Social, em que 50% do lucro vai para projetos de educação e, no ano passado, o Fundo Itaú Eco-Mudança, que repassa 30% da taxa administrativa a projetos", resume.
E a pressão da sociedade é um grande termômetro, de acordo com o vice-presidente do Itaú. "Por isso, estamos lançando agora um prêmio de Finanças Responsáveis, incentivando matérias jornalísticas e projetos acadêmicos nesta área", afirma.
O papel da mídia na sustentabilidade
O diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, observa que é complexa a relação da sociedade brasileira com o processo do lucro e progresso ascendente dos negócios. "Não é de todo absurdo, dada as mazelas e dificuldades sociais no país".
De acordo com o jornalista, já se pode verificar efeitos positivos dessa mobilização, como no caso de leis municipais em São Paulo - Cidade Limpa e Psiu Ante Ruído nos Bairros. "Quem faz a lei pegar são os cidadãos, e a imprensa serve como trombone e tribunal da sociedade, e acaba fazendo parte da cadeia de marketing também. Mas o seu papel é contar tanto histórias boas, como más. E do ponto de vista interno, a empresa de mídia deixará de ser sustentável, se a crença do todo não respeitar as partes ou se obrigar o repórter a não escrever o que ouve", afirma.
Sucena Shkrada Resk
30/03/200822:56 Parte 7-A aclamada interoperabilidade, por Sucena S. Resk
Interoperabilidade é um termo que vem ganhando projeção no universo da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Segundo o professor Phillipe Navaux, do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o conceito é simples: significa a habilidade do sistema ou produto em trabalhar com outros sistemas e produtos. Por isso, transmite, em tese, a idéia de cidadania sem fronteiras no mundo globalizado, composto pelo critério da síntese, da funcionalidade, da execução e dos protocolos e regras de ambiente.
A Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura (Unesco), no documento Rumo a Uma Sociedade do Conhecimento, já preconiza a interoperabilidade, que representa o acesso livre a documentos digitalizados, redes de gerenciamento coletivos e a geração de plataformas sustentáveis. "É importante destacar que a base do conhecimento da sociedade global dobra a cada três anos. São 7 mil trabalhos científicos produzidos por dia no mundo. Estudantes de escolas secundárias em países industrializados são expostos a informações mais que seus avós em todas suas vidas", destaca Navaux. De acordo com o especialista, nas próximas três décadas haverá mais conhecimentos disseminados do que nos últimos três séculos.
A atual plataforma de comunicação prevê conteúdo e serviços, inclusão digital e cidadania, TI como chave de desenvolvimento industrial e interação. Como exemplo dessa iniciativa no Brasil, cita o governo eletrônico, entre outros.
Mas atingir a pluralidade depende estritamente da definição de protocolos individuais e de corporações. "Se o protocolo é muito restritivo e imperialista passa a ter risco de exigir uniformização que elimina a interação", explica o professor do Departamento da Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (USP), Flávio Soares Corrêa. O especialista em inteligência artificial é a favor da co-existência de protocolos para atender a nichos específicos. "Hoje verificamos, que neste sentido, o governo eletrônico se beneficiia. Do ponto de vista internacional, é positivo para o comércio e questões diplomáticas. Já internamente, cria a possibilidade de transparência", diz.
Nesse universo da globosfera, ganha força o projeto da certificação digital, como afirma o gerente de Certificação do Serasa, Igor Rocha. "O objetivo é de que os documentos eletrônicos digitalizados tenham a mesma validade jurídica dos assinados em papel, desmaterializando os processo", explica.
Rocha recorda que o governo brasileiro iniciou em 1998 o trabalho na infra-estrutura das chamadas chaves públicas. "Em 2001, nasceu o ICP-Brasil, em co-existência com a iniciativa privada. O benefício proposto ao usuário é que esse certificado se baseia em padrões internacionais da ONU. O processo do mensalão, por exemplo, foi digitalizado. Tanto ministros, como advogados tiveram acesso simultâneo aos documentos", conta.
"Mas a interoperabilidade sofre entraves jurídicos", afirma Marcelo Zuffo Filho, engenheiro de Sistemas Eletrônicos da Poli/USP. De acordo com o acadêmico, historicamente o Brasil ainda não superou a onda da Revolução Industrial. "Há ausência de brasileiros nos fóruns internacionais. Como exemplo, temos a discussão da implementação da TV Digital. O Banco Mundial também tem um estudo, que menciona que a engenharia brasileira é "world class", mas há timidez e constrangimento dos profissionais em participar desses fóruns", diz. Essa ausência, de acordo com Filho, acaba resultando na aceitação de royalties implícitos.
Agora, a discussão é sobre a adoção oficial do padrão ODF no Brasil x XML. "O governo brasileiro é favorável ao ODF. Aí vem a questão da harmonização e extensabilidade. Sou favorável ao conceito de "padrões únicos, já que o Open XML é difundido na educação, saúde e finanças", afirma o diretor nacional de Tecnologia da Microsoft, Raimundo Costa.
Sucena Shkrada Resk
30/03/200820:39 Parte 6 - De idéias se faz a inovação, por Sucena Shkrada Resk O celeiro de idéias que resulta em processos de inovação geralmente tem um percurso extenso. "Um sucesso pode ter partido de uma seleção entre 3 mil idéias. Existe um custo embutido nessa perda do cancelamento. Por isso, inovação é risco", diz o sócio-diretor do Monitor Group, Gustavo Zevallos.
Segundo ele, o licenciamento da propriedade intelectual é uma fonte de retorno que não pode ser minimizada. "Essa é a lógica econômica da viabilidade da implementação da inovação, e a perda que ocorre nesse processo não é vista pela sociedade", explica. Esperar ganhos imediatos é um equívoco, de acordo com o especialista. Leva-se um tempo para que o investimento se torne rentável.
"Não se deve ter uma posição extremista, quando se trata de propriedade intelectual. Em alguns casos é procedente, em outros não. A proteção é uma maneira de haver a transformação em riqueza, mas exige custos", observa o diretor de mercado da Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), Djalma Petit.
O executivo concorda que a maior dificuldade é exigir da micro e pequena empresa arcar com os custos de acordos internacionais de propriedade intelectual. Mas existe um sinal no fim do túnel quanto ao acesso à promoção das inovações. "Em novembro passado, o Programa Nacional de Ciência e Tecnologia anunciou o volume de recursos de mais de R$ 300 mi da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), pelo Governo, às pesquisas e inovação, a fundo perdido, que devem ser muito bem aproveitados", diz.
Formas de proteção
A presidente da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual (Abpi), Juliana Viegas, explica que a propriedade industrial é uma das partes da propriedade intelectual. "A patente não é a única proteção possível. O governo outorga uma espécie de monopólio legal com a patente, que pode impedir que terceiros usem a mesma, apesar de ter chegado a igual resultado". E a contrapartida é que o inventor revele à sociedade sua criação. "é uma forma de proporcionar mais inovações", diz.
Outra forma de proteção, segundo Juliana, é o segredo industrial/empresarial. "Neste caso, não impede que terceiros cheguem à mesma conclusão e tenham o reconhecimento do invento". A vantagem que tem sobre a patente, segundo ela, é que esta última é cara e inviável para pequenas e médias empresas. "O segredo não depende de gastos e burocracia. Uma vez tornado público, no entanto, perde toda a proteção. Jà a patente publicada, a mantém e deve ser usada pelo titular, que deve retornar os benefícios à sociedade".
A presidente da Abpi explica que hoje a legislação brasileira é "praticamente avançada" nesta área e cumpre o Tratado Tríplice da Organização Mundial do Comércio. "O que precisa é ter mais eficácia, principalmente do reconhecimento do juízo, do ponto de vista de proteção das fronteiras e questões alfandegárias", afirma.
O papel da universidade
Para o pró-reitor de Inovação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Jorge Luís Nicolas Audy, os parques tecnológicos, a exemplo do TecnoPUC, onde hoje trabalham cerca de 1,5 mil pessoas, principalmente na área de TIC, é uma saída positiva para o avanço no setor.
"O ambiente da sociedade do conhecimento nas universidades deve assumir um papel diferente de tempos atrás. Em meados do século XIX surgem os centros de pesquisa, mas é no século XX, que se destaca Stanford, e o Vale do Silício, além de Harvard", explica.
Audy define que as instituições universitárias assumem uma vocação empreendedora como agente de desenvolvimento econômico. "Requer cooperação em rede, mas com atores da sociedade. Com isso, gera mais resultados. O que se discute hoje é o caminho de volta dos conhecimentos gerados pelos recursos aplicados na pesquisa, que não podem se deter só no desenvolvimento científico", diz.
Todo o processo, de acordo com o pró-reitor, envolve mudanças culturais fortes. "É um erro ter exclusividades. Exemplos positivos que geram riqueza e melhoria de qualidade de vida são iniciativas, como o Porto Digital, da Universidade Federal de Pernambuco e o Sistema Mineiro de Parque Tecnológico", afirma Audy.
Na análise do diretor geral da Agência USP de Inovação, Osvaldo Massambani, a missão central da universidade é a formação de RH bem preparado. "Entretanto, o potencial de conhecimento transborda para o setor industrial. Na USP, por exemplo, estamos patenteando 120 projetos anualmente. Mas isso se estende à ótica técnica e de mercado, e parceria com as empresas", diz.
Sucena Shkrada Resk
30/03/200819:06 Parte 5 - Brasil precisa acelerar na inovação, por Sucena Shkrada Resk Existe hoje uma dicotomia entre o momento macroeconômico favorável e a "lentidão" no avanço digital no Brasil. Esse foi o consenso entre os debatedores do painel Capital de Risco na Inovação, do Fórum Inovação Brasil 2008, realizado no dia 27, na sede da Fiesp, em São Paulo.
"O país tem a geração de muito conhecimento, empreendedores e capital (fundos brasileiros nacionais e internacionais), mas a qual velocidade segue esse ciclo? Esse é o questionamento do diretor de investimentos da Intel, Fábio de Paula. Segundo ele, existe uma "miopia" ao se rotular que o DNA nacional é somente o agronegócio. "Tudo depende de TI e, com o setor avançando, as empresas se tornam mais competitivas", diz.
O economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Danilo Igliori, concorda que atualmente é um momento favorável do risco-país. "Mas isso não que dizer que não se deva fazer nada. "Olhar para o desenvolvimento local é muito importante e, para isso, têm de estar envolvidos todos os atores para promover a inovação e a adoção de políticas públicas do setor", diz. O especialista acredita no potencial das chamadas indústrias criativas - nas áreas de design, moda, software, games, cinema e publicidade.
Na opinião do diretor de marketing da Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom), Ricardo Asser, a estratégia de desenvolvimento está na promoção da exportação, na convergência digital, na capacitação de RH e nas questões marco-regulatórias. "O Brasil não pode perder essa onda. A perspectiva é que nos próximos 5 anos sejam realizados 5 bi em exportações", diz.
Segundo ele, são importantes iniciativas de se instalar clusters nas proximidades dos grandes centros, como é o caso do projeto de Arranjo Produtivo Local (APL) de TIC de São Caetano do Sul. "Pela proximidade a São Paulo e com uma ação concreta na área de educação, promove o potencial do setor", considera.
Um ponto nevrálgico, de acordo com Roberto Mayer, presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet (Assespro-SP), são as altas taxas de juros de títulos do governo federal. "São algumas das maiores do mundo, o que causa um problema ao investimento. Dessa forma, os fundos de investimentos estrangeiros são beneficiados", analisa.
Por outro lado, o empresário enfatiza a necessidade de se ampliar a internacionalização. "A entidade está assinando vários acordos com outros países. O mais recente foi com a Câmara Internacional da Argentina", diz. Com essas iniciativas, Mayer considera que o Brasil se coloca de forma mais assertiva no mercado globalizado.
O presidente da Assespro-SP afirma que existe um vácuo de liderança no setor de TIC no Brasil. "O Chile e o México saíram na frente, nesse processo. A TIC tem de ser tratada como política de estado", afirma.
Sucena Shkrada Resk
30/03/200817:33 Parte 4-O risco e o crescimento, por Sucena S.Resk (Fór.Inovação) O capital de risco tem uma relação intrínseca com o estímulo do crescimento da economia global, segundo Dan`L Lewin, vice-presidente da Microsoft para Estratégias e Desenvolvimento de Negócios Emergentes. O executivo, com um know-how de 32 anos no Vale do Silício, acredita que o setor de TIC está atingindo uma curva ascendente, desde os anos 1970 e, mais recentemente, com a definição W3C de conversões de aplicativos. "Nos últimos 7 anos, essas conversões acontecem de maneira simples e padronizada, para a integração de famílias, amigos e nas relações de consumo, trabalho e governamentais", disse, durante sua palestra, no Fórum Inovação Brasil 2008, realizado no último dia 27, na sede da Fiesp, em São Paulo.
Um elemento importante para auferir credibilidade no processo, segundo ele, é o Interop Vendor Alliance (IVA). "Essa chave de segurança representa uma evolução no sistema bancário, tanto que foi criada a Alliance Securet", diz.
No campo da inovação e acessibilidade, a Microsoft aposta as fichas nos últimos anos nos centros de desenvolvimento tecnológicos. "Já criamos cerca de 100 mundialmente, sendo 20 no Brasil. As unidades respondem à cultural local e têm o objetivo de promover a inclusão digital e criar oportunidades comerciais", afirma.
Mas Lewin diz que um dos principais entraves na ampliação do mercado é a burocracia. "O combustível para o empresário é focar sua atenção no produto e, para isso, precisa assumir riscos. E não pode temer o aparecimento de problemas. Ao identificá-los, tem de aprender com o fracasso e o que deve fazer de diferente". Sucena Shkrada Resk
30/03/200816:44 Parte 3 - Os gargalos da TIC no Brasil, por Sucena S.Resk (Fór.Inovação)
Os grandes gargalos do Brasil na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) são a falta de mão-de-obra qualificada, pouco fomento de parcerias e a baixa cultura de patentear inovações. "É preciso valorizar o capital intangível desta área, que propicia o surgimento de novas empresas e novos negócios", afirmou Pierângelo Rossetti, vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e diretor titular adjunto do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, no último dia 27, no Fórum Inovação Brasil 2008, realizado em São Paulo. Isso representa, segundo ele, agregar valores adicionais, como os distritos digitais e centros de serviços digitais regionais.
"Hoje a liderança da China e da Índia se baseia na formação de melhores técnicos. Temos de seguir essa experiência e não podemos perder tempo", afirma. Rossetti considera que o crescimento econômico sustentável do Brasil, no patamar dos US$ 40 bi, é um cenário positivo para esse fortalecimento. "O país é o quinto consumidor mundial de computadores e não temos medo de aumentar esse consumo", analisa.
Vahan Agopyan, coordenador de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Desenvolvolvimento do Estado de São Paulo, defende a quebra do ciclo vicioso, em que o Brasil produz quase 2% do conhecimento mundialm e ao mesmo tempo, não consegue produzir no mesmo patamar para a sociedade.
"O estado de São Paulo responde por 1% desse conhecimento, principalmente com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). Mantém ainda duas das 100 melhores universidades, além das escolas técnicas. Com isso, é possível dar guarida a empresas do setor, mas isso não está acontecendo", diz.
Na opinião do presidente da Microsoft Brasil, Michel Levy, é preciso haver maior empenho para derrubar as dificuldades de acessibilidade. "Vinte por cento dos 6 bi de habitantes no mundo têm conexão com a informação na internet. Temos responsabilidade para diminuir esse fosso".
Segundo ele, a multinacional já mantém no país 20 centros de inovação com parceiros locais para fomentar soluções de software e de aquecimento da economia local. "A Microsoft também promove a Copa de Computação há 5 anos, onde o Brasil se destaca no número de inscritos. Foram 36 mil em 2007 e mais de 50 mil, neste ano. Esse é um sinal de que esse potencial deve ser aproveitado", diz.
Levy analisa que há uma projeção favorável nos próximos três anos no cenário de TIC. "De acordo com o IDC, é esperado que a importação de softwares na América Latina duplique neste período, o que significa 600 mil empregos na área, sendo que 50% deles no Brasil", afirma. E para isso acontecer, o presidente da Microsoft Brasil afirma que é vital a formação de mão-de-obra jovem, alavancada por meio do ensino de Ciências e de Matemática.
Sucena Shkrada Resk
29/03/200817:06 Parte 2 - A educação no caminho da inovação, por Sucena Shkrada Resk O secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, Augusto César Gadelha Vieira, afirma que o Brasil deve quebrar o estigma de ser inferior à Índia e China, mas precisa fazer um investimento significativo na educação. "Fui à Índia e verifiquei que temos chances maiores na área de TI. Mas lá eles acertaram na questão do estímulo à educação na área tecnológica, diferentemente do Brasil". A sua análise sobre o setor foi feita, no último dia 27, durante o debate sobre educação e inovação para a sustentabilidade, promovido no Fórum Inovação 2008, realizado pela Microsoft Brasil, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Vieira considera que a saída não é copiar os modelos estrangeiros. "Mas temos de investir na Ciência da Computação, pois está em 15ª lugar nas áreas de ensino universitário. Essa é uma discussão que já estamos mantendo com a Frente Parlamentar da Ciência e Tecnologia", afirma.
Mas ao mesmo tempo, o secretário elogia o empenho dos outros países. "Na Índia, a pobreza é impressionante, mas o contraste é verificar a construção de institutos técnicos que almejam a qualidade. E o sonho dos indianos é ver seus filhos estudarem nestas escolas, para ascenderem socialmente". Já na China, também observou a ânsia dos estudantes em aprenderem o inglês para se inserirem no mundo globalizado.
A escola, de um modo geral, tem deprimido o ímpeto da inovação. Essa é a principal crítica de Fernando Fonseca Júnior, da Fundação Padre Anchieta, ao modelo pedagógico adotado atualmente no Brasil. "Nossas metologias atuais levam à passividade e não atacam problemas reais, para fazer com que o aluno produza", afirma. E o especialista vai mais além. "O fundamento ético não está colocado na escola. Vivemos num mundo com recursos finitos", questiona.
Para o presidente do Compromisso Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos, a formação dos educadores tem de ser avaliada de forma mais rígida. "Somente 9% dos professores que ensinam física, tiveram formação nesta área", diz. E o mais grave, segundo ele, pode ocorrer em um prazo de cinco a 10 anos. "Os atuais professores de educação básica vão se aposentar e não teremos como suprir esta demanda", afirma.
Mais um dado de impacto apresentado pelo especialista em educação é a estatística de jovens no ensino médio. "Um total de 43% de jovens está, de fato, no ensino médio, o restante se encontra no fundamental ou fora da escola. Já o ensino superior apresenta um currículo pouco flexível, como produção em série", analisa.
Para combater essas deficiências, Ramos sugere a adoção de modelos europeus, que enfatizam de uma forma mais regular a presença de incubadoras nas universidades. "Isso não significa privatização", afirma.
Em sua opinião, a produção de paper científico não é suficiente. "Hoje são formados 10 mil doutores no Brasil anualmente, mas podemos dizer que 100 representam a grande maioria da produção científica. O país está hoje na 15ª colocação", diz.
E Ramos se posiciona a favor do patenteamento ser uma ação predominante da indústria. "Existe uma barreira financeira considerável. Para tirar a patente nos EUA, o custo é na faixa de US$ 100 mil. Os nossos pesquisadores ainda enfrentam o exército de chineses e indianos", afirma.
Roberto Lotufo, diretor-executivo da Agência de Inovação Inova -Unicamp, por experiência própria, é a favor do investimento em incubadoras na universidade, e acredita que a academia deve buscar as patentes. A experiência é bem-sucedida, segundo ele, desde a implementação do projeto em 2003. De acordo com o gestor, atualmente mais de 200 empresas foram criadas, neste modelo, dentro da agência. "A universidade deve ser toda empreendedora. E no Brasil, é preciso mais investimento na qualidade da educação e inovação", defende.
Lotufo acredita que é preciso iniciativas no país arrojadas, como a de Casimiro Montenegro Filho, ao implementar o ITA, em São José dos Campos. "Foi uma idéia totalmente diferente, em que professores e alunos moravam na instituição e criavam um entrosamento", diz. E na esfera internacional, citou o case da Coréia, que apesar de ter criado sua Lei de Inovação somente há dois anos, já tem um desempenho surpreendente. "E a China manda os seus alunos estudar fora, mas ao mesmo tempo traz professores gabaritados para formar as melhores universidades no país", compara.
Quebra de barreiras
O vice-diretor superintendente do Centro Paula Souza defende a quebra de fronteiras entre escola, iniciativa privada e sociedade. "A preocupação da instituição é atender à necessidade do mercado e das empresas. Outro ponto importante é a questão das parcerias, segundo o executivo. Saímos da sala-de-aula para ouvir as empresas e criar novos currículos. E dessa forma, conseguimos algumas inovações", diz. Essa tendência de gestão na área educacional, de acordo com Silva, leva a instituição acadêmica à regionalidade e aos Arranjos Produtivos Locais (APLs).
Sucena Shkrada Resk
29/03/200815:40 Parte 1 - A educação no caminho da inovação, por Sucena Shkrada Resk "Hoje não temos consciência que estamos desnacionalizados e que os concorrentes não estão mais dentro das fronteiras". A afirmação é do engenheiro aeronáutico e atual reitor da Universidade de Santo Amaro (Unisa), Ozires Silva, que em 50 anos, ocupou posições estratégicas no cenário nacional, como ex-presidente da Embraer, da Petrobras e da Varig, além de ministro da Infra-Estrutura. O empreendedor prendeu a atenção de empresários e acadêmicos presentes no Fórum Inovação Brasil 2008, realizado no último dia 27, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital. Ele defendeu a tese de que se não forem quebrados os abismos na preparação educacional dos cidadãos, o Brasil não conseguirá se projetar no caminho para a sustentabilidade.
Em uma breve viagem no tempo, recortou os principais eixos históricos do século XX, mostrando a mudança de conceitos que gerou a globalização da Economia em relação direta com as comunicações internacionais. Segundo ele, um período em que imperou a dicotomia da visão da ameaça x oportunidades.
Partiu do advento da 2ª Guerra Mundial, e o Plano Marshall (de apoio aos países da Europa Ocidental), seguindo para a ascensão dos Tigres Asiáticos (década de 70), a posição estratégica da Coréia e Irlanda (anos 80) e da China e Índia (anos 90). E apresentou a seguinte provocação - E o Brasil, quando passará a ser ator de si mesmo?
De acordo com Silva, um dos entraves para a projeção brasileira é manter uma legislação extensa. "Temos mais de 105 mil decretos, 12 mil leis e isso é ineficiente. Precisamos gerar mais facilidades aos empreendedores e ganhar na área da educação, a corrida contra o atraso na educação básica, humanidades e exatas", diz.
Ozires Silva considera que desenvolvimento é projeto de produção intencional. "Para isso, é preciso vontade política da sociedade em se manifestar (além do poder público e legislativo), unindo inovação com empreendedorismo", afirma. Os números, segundo ele, são prova de que é preciso mudanças. Enquanto no Brasil se formam 20 mil engenheiros por ano, na Coréia são 80 mil, na Índia, 200 mil e na China 300 mil. "Nesse cenário global, o Oriente Médio e a África também estão investindo muito na educação. Em Oxford, por exemplo, 60% dos ingressantes em 2007 são alunos chineses. E o governo chinês matriculou 200 mi estudantes fora do país", diz.
Com o investimento maciço de outras nações no aprimoramento do ensino, o reitor da Unisa conclui que sem educação continuada, não há inovação. E afirma que decisões arrojadas são importantes, citando o case nacional da Embraer, da qual é um dos fundadores. "A empresa nasceu de um processo vitorioso educacional com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), nos anos 70 (idealizado por Casimiro Montenegro Filho). Hoje a Embraer vende em mais de 70 países, e tem uma carteira de US$ 33 bi", diz.
A união da educação com a identificação com o mercado, por meio da fabricação de produtos próprios, é mais um ponto importante nesta jornada, de acordo com Silva. "Com isso, há um processo contínuo de aperfeiçoamento, complementação internacional de tecnologia e autonomia de vendas no exterior".
Uma data ficou marcada em sua mente - 22/10/68. Neste dia, voou o primeiro avião da Embraer. "Não tínhamos capital, usamos equipamentos de várias origens e conseguimos fazer com que voasse. Depois disso, transformou-se no Bandeirante, com 18 lugares, que vendeu bastante nos EUA. E hoje, a empresa fabrica o EMB-190, para até 110 passageiros e vende para a Europa e Ásia, além dos EUA".
Ozires Silva defende que é preciso incentivar a visão de futuro. Sem medo de arriscar, o acadêmico e aviador confessa que está em mais uma nova empreitada, agora, na área de biotecnologia. "Temos de acelerar o estímulo empreendedor", diz. E para isso, há um arsenal à disposição, em sua opinião, formado pela robótica, nanotecnologia, biotecnologia, TIC, serviços e acumulação de conhecimento.
"O risco do empreendedor nunca é zero, mas temos de fazer que seja o menor possível", considera. A pesquisa é fundamental nessa meta para se chegar à inovação. "Noventa por cento das inovações no mundo estão saindo das empresas. E as universidades oferecem garantia de competência no processo. Nos novos cenários de produção, os ciclos dos produtos são menores e há a concorrência global. Por isso, há necessidade do desenvolvimento de técnicas gerenciais de inovação", fala.
O pulo do gato para que as coisas funcionem é não haver medo do questionamento, na opinião do empresário e acadêmico. "As perguntas que devemos fazer são as seguintes - Somos eficientes?
A educação como está?(principalmente com relação à deficiência na educação básica)
E o poder público local até o federal estão envolvidos no processo?"
Ozires Silva encerra sua imersão sobre os caminhos para a sustentabilidade, com a citação da frase de Albert Einstein. "Nenhuma mente que se abre para uma nova idéia jamais voltará a ter o tamanho original".
Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:26 O embate sobre o etanol, por Sucena Shkrada Resk
crédito foto: Sucena S.Resk
A viabilidade dos Biocombustíveis é um assunto que ainda vai render muitos capítulos. E no último dia 14 de março, a palestra - "Etanol e Mudanças Climáticas", ministrada em São Paulo, por José Roberto Moreira, presidente do Centro Nacional de Referência em Biomassa (Cenbio) e autor no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), trouxe o tema novamente para o centro das atenções. O especialista resumiu uma série histórica que envolve o assunto, destacando que, apesar de o questionamento sobre a produção do etanol ser presente, essa fonte ainda é a mais sustentável do ponto de vista ambiental. A afirmação foi feita na fase final do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável. A posição do especialista, entretanto, não é unanimidade entre outros pesquisadores sobre a pauta de bioenergia e agronegócios.
"Até dois anos atrás, o uso do etanol era considerado positivo para a mitigação dos problemas ambientais. Daí houve um boom de produção, puxado pelos EUA (que já ultrapassa o Brasil), e aí veio a "preocupação" da indústria petroleira - quanto à disputa das áreas de cultivo para combustível x alimentos", diz.
A Organização das Nações Unidas (ONU), segundo Moreira, também se posicionou contrária ao etanol no Brasil, com o argumento de que confrontaria o combate à fome. "Então, surgiu a problemática do uso de fertilizantes. Mas verificou-se que o uso de inseticidas é da proporção de 0,12", afirma.
Hoje o questionamento é quanto ao consumo de água para a produção", explica o presidente do Cenbio. Segundo o especialista, uma preocupação sem fundamento. "Uma tonelada de cana-de-açúcar é igual a 100 litros de álcool; e para um litro de etanol são utilizados 50L de água", diz.
Esse é um ponto ainda discutível, já que não há um consenso sobre a quantidade de água utilizada entre os especialistas.
E a polêmica não pára por aí. Outro aspecto que ainda provoca dúvidas, de acordo com Moreira, é se há área suficiente para o cultivo da cana, que não prejudique a produção de alimentos, em uma projeção até o ano de 2030. E nesse ponto, é enfático - "O pobre morre de fome por falta de poder aquisitivo e não de comida", afirma, tecendo crítica também ao desperdício de toneladas de alimentos, que ocorre no Brasil e no mundo. Entretanto, uma outra corrente é mais cética, prevendo que se as metas do uso de etanol forem praticadas à risca em substituição aos combustíveis fósseis, ocuparão a área destinada à agricultura.
O especialista diz que o biocombustível ocupa hoje 1% da terra disponível. "As críticas são infundadas e distorcidas, esquecendo o problema do aquecimento global. Uma tonelada de carbono fóssil é correspondente a 10 ton de combustível renovável. E se emite CO2, tem também como resultado (compensatório) o álcool", afirma.
Um caminho longo a percorrer
O presidente do Cenbio constata, entretanto, que o Brasil, durante a história de 32 anos do PróAlcool, poderia ter sido muito mais eficaz quanto à sua contribuição ao meio ambiente. "A cada um hectare de terra seriam evitadas 700 toneladas de CO2, mas só foram 0,75 GT, em vez de 2,25 GT, neste período", diz.
Nesse ponto, Moreira faz uma análise, que tem como base "as sete cunhas", metodologia de projeção de mitigação de 1 gigatonelada de CO2 (por cunha) elaborada pelos professores da Universidade de Princeton, Pacala e Socolow, em que cada uma representa uma ação bem-sucedida. "Seria importante que o Brasil atingisse 14 GTC/ano de redução de emissão de CO2. Hoje faz 1/7 de uma cunha, mas está realizando uma ação", diz. Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:25 Parte 5-A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena Shkrada Resk
crédito foto: Sucena S. Resk
O terceiro e último painel do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável discutiu o tema "Mudanças Globais: Cinco Continentes e um só Regime Internacional", no último dia 14, em São Paulo. Tasneem Essop, ministra do Meio Ambiente, Planejamento e Desenvolvimento Econômico da Província de Wertern Cape/África do Sul e co-presidenta da Rede nrg4SD, enfatizou que todas as finalidades pós Protocolo de Kyoto convergem na superação da vulnerabilidade, que vai desde os aspectos da saúde ao controle da poluição urbana.
Segundo ela, as ações em Western Cape, na África do Sul, priorizam planos na área de energia renovável, fundos de mecanismo de desenvolvimento dos créditos de carbono e programas de energia limpa e de água integrados.
A presidente da Agência de Gerenciamento de Impacto Ambiental, da Província Norte de Sumatra, na Indonésia, e vice-presidente da Rede nrg4SD na Ásia, Syamsul Arifin, explicou que após os efeitos do Tsunami, a região onde vivem 11,9 mi pessoas teve a intervenção de várias frentes de ações. "Foram desenvolvidos workshops de geração de trabalho e negócios, sobre impactos das mudanças climáticas, de sustentabilidade na área de pesca e reconstruções das cidades com o apoio do Un-Habitat", diz. Um dos conceitos introduzidos foi o de projetos de edificações mais resistentes, com ajuda técnica da União Européia e o da bio-arquitetura.
Marco Betti, ministro de Água, Proteção do Solo, Biodiversidade e Desenvolvimento de Regiões de Montanhas - Toscana, na Itália, informou que as medidas tomadas na região para reverter os processos de erosões e de inundações passam por um conjunto de ações. Entre elas, renovação de energia, retirada gradativa do tráfego de veículos nos grandes centros e a implementação da bio-arquitetura. "Para 2020, a meta é reduzir 14,4 mil ton de CO2", diz.
Já o representante do governo basco afirma que a meta até 2010 no país, é introduzir políticas de colaboração com relação ao etanol e ter um desenvolvimento econômico menos dependente dos combustíveis fósseis. "Não podemos esquecer o social e precisamos assumir mais as nossas responsabilidades", diz. Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:24 Parte 4 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk
crédito foto: Sucena S. Resk
"A América Latina: Os esforços e os Impactos da Governança" foi o destaque do segundo painel do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável, promovido, no último dia 14, em São Paulo. Ricardo Sánchez Sosa, diretor regional do Pnuma para a América Latina e o Caribe, frisou que só crescimento econômico não significa sustentabilidade. "Apesar de o crescimento regional ser de 20%, não diminuiu nem a pobreza e a desigualdade na mesma proporção", afirma. Como gargalos, ele citou a questão dos resíduos sólidos, contaminação das águas, emissões de CO2, e da necessidade iminente de diminuição do número de pessoas vulneráveis e da implementação de programas de eficiência energética. Daí, sim, se pode chegar ao seguinte binômio: melhora da economia e da qualidade de vida.
Os expositores internacionais apresentaram cases de suas regiões para diminuir o quadro de vulnerabilidade. O representante do governo da Província de Santa Fé, Argentina, Cesar Mackler, contou que está sendo necessário um conjunto de ações para se chegar à mitigação de uma região, que sofre mais nas zonas costeiras, onde 2003 houve inundação, que resultou em 14 mortes e três anos depois vitimou a população, por causa de chuvas de granizo de 9cm de diâmetro, que ocasionaram muitos estragos. E no ano passado, as cenas de tragédia climática se repetiram, o que exigiu intervenções imediatas.
"Uma das iniciativas é a readaptação dos assentamentos e canalização das áreas afetadas. O governo também está providenciando o tratamento dos gases dos aterros sanitários, para que no futuro possam produzir energia paralelamente ao plano de eficiência energética", explica. As mudanças atingem até os semáforos das vias locais.
Ao mesmo tempo, começaram os estudos de impacto ambiental de empresas, para haver a racionalização da energia. E no aspecto humanístico, Mackler disse que foi criado um sistema de alarme, que pode anteceder ao desastre climáticos em até 8h. "Pode salvar vidas. Em 2003, não houve tempo. A água subiu 2m, sem aviso prévio", compara.
Sosa, do Pnuma, ressaltou que os créditos de carbono devem ser comprados pelos países desenvolvidos, para que as nações pouco desenvolvidas e em desenvolvimento possam fazer investimentos em educação e saúde, que são decisivas para o desenvolvimento humano. "Catorze vidas humanas são impagáveis (case da Argentina), além dos milhões de U$ em patrimônios perdidos. Hoje o Equador e o Peru, entre outros países, sofrem com fenômenos, como o La Niña, precisam de auxílio. E para isso, também é importante o incentivo da participação cidadã", afirma.
Cidadania Global
O conceito de participação cidadão foi o centro da apresentação da diretora de Acordos e Participação Cidadã, da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do México, Laura Mitzi Barrientos. Segundo a especialista, já foram capacitadas mais de 560 mil pessoas em matéria ambiental, dentro dos preceitos de Cidadania Global, trabalho desenvolvido em parceria com o Pnuma.
"Foram formados 63 conselhos municipais de proteção e biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, e criado um telefone verde para denúncia feita pela própria sociedade. Nas escolas, as crianças assistem a palestras e aprendem a separar os resíduos urbanos, a consumir com economia a água, entre outras ações", conta.
E Laura diz que as mudanças também atingem a esfera administrativa, como parte do Plano de Manejo Ambiental. "Com o reúso d`água e a criação de hábitos, como apagar a luz, desligar o computador, porque por mais pequenas possam parecer essas iniciativas, são capazes de modificar o entorno", afirma.
Para sintetizar a idéia de cidadania ambiental, Ricardo Sánchez Rosa, do Pnuma, falou da importância do envolvimento neste processo, de líderes religiosos, municipais e de rádios comunitárias, entre outras, para multiplicar a educação ambiental. "As pessoas aprendem quais as funções de áreas protegidas, o porquê da necessidade do reflorestamento etc", diz. Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:23 Parte 3 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk O secretário de Estado do Meio Ambiente de São Paulo, Francisco Graziano Neto, expôs, no último dia 14, as principais frentes de atuação do executivo paulista na revitalização ambiental, e destacou que a pasta está prestes a divulgar o resultado de um levantamento sobre as 100 principais empresas emissoras de carbono fóssil no estado. "Mas posso adiantar que as líderes no ranking são uma siderúrgica, 3 refinarias e uma petroquímica", disse a uma platéia que lotou o auditório no Ibirapuera, durante o III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável.
De acordo com o secretário e também vice-presidente para a América Latina e Caribe, da Rede, a emissão de CO2 pela queima de combustível total da indústria, se divide nas seguintes fontes:
-Fóssil - 18,5 mt (23%) - principalmente originária dos segmentos industriais de cimento, cal e ferro
-Renovável - 60,9 mt (77%) (bagaço, etanol, biogás, biodiesel, lixívia, lenha de reflorestamento)
"Os setores que mais emitem CO2 em sua produção, são o de aço e ferro, de minerais não-metálicos, químico, petroquímico, de papel celulose, de ferro-ligas, alimentício e têxtil. Embora a situação ainda seja difícil, estamos caminhando para o controle em São Paulo, no combate ao efeito estufa. Se houvesse a substituição dos fósseis, seriam evitadas 50 mt de CO2 (dados de 2006)", diz Neto.
Segundo o secretário, uma das propostas do executivo paulista para reverter esse quadro é a de uma lei estadual com metas de reduções. "Essa iniciativa será um diferencial no Brasil", afirma. Para o fechamento do projeto da lei estadual de mudanças climáticas, o Fórum Estadual de São Paulo mantém uma minuta na Internet, para receber sugestões da opinião pública.
"E estamos operacionalizando o Projeto São Paulo Amigo da Amazônia, que fiscaliza nas rodovias paulistas, caminhões procedentes de RO/PA e MT, para verificar se há transporte de madeira ilegal. As ações também se estendem ao comércio atacadista de Sorocaba, Araçatuba e São José do Rio Preto, entre outros, com a verificação dos estoques", informa.
De acordo com Graziano, São Paulo também deverá implementar brevemente um cadastro voluntário de madeireiras, com a adoção de selos verdes. "E as compras públicas só poderão ser feitas desses estabelecimentos", diz. Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:22 Parte 2 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk
crédito foto: Sucena S. Resk
O primeiro painel do III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável, realizado no último dia 14 de março, em São Paulo, discutiu - A Contribuição dos Estados Brasileiros no Combate às Mudanças Climáticas. Eugênio Marcos Soares Cunha, presidente da Associação Brasileira de Entidades Estaduais do Meio Ambiente (Abema) e diretor geral do Instituto de Defesa do Meio Ambiente (Idema) fez um diagnóstico sobre as ações do grupo no país.
Hoje a entidade conta com a participação de 48 entidades e órgãos públicos, em 11 fóruns estaduais. "Mas alguns funcionam e outros não, com menos intensidade, por isso pretendemos reforçar mais as discussões no NE", diz. Segundo Cunha, os processos mais avançados estão nos estados de SP/PR/BA/SC/MG/ES/TO/AM/RJ/PI e RS. "No PR, a diferenciação é que mantém também a participação do setor privado", diz o presidente da Abema.
Segundo Cunha, desde 2000, quando os fóruns começaram a ser planejados, foram instituídos alguns grupos de trabalho, que se dividem em Desmatamento, Vulnerabilidade (principalmente na regiões do semi-árido, cerrado e costeira), Mecanismos de Desenvolvimento Limpo, Energia e Estado da Arte (emissões e causas). A tônica das discussões é se afinar com os objetivos do Plano Nacional de Mudança do Clima e com o Programa Nacional de Mitigação de Gases de Efeito Estufa, de 2000, que foram amadurecidos desde 1992, com a ECO 92.
Uma das implementações mais recentes, de acordo com o presidente da Abema, ocorreu no estado do AM. "Em 2007, criou a política estadual, com o Fundo Estadual de Mudança do Clima, que prevê incentivos fiscais, selos de certificação etc", afirma. Já no PR, foi instituída a Coordenadoria de Mudanças Climáticas, com ações que vão desde seminários até uma publicação sobre o tema, que deverá ser lançada neste ano.
"O Rio de Janeiro está concluindo o inventário do estudo de vulnerabilidade ambiental, para ficar de acordo com a implementação do biodiesel. E tem a proposta da criação de um fundo de compensação energética", afirma Cunha. E no NE, um dos destaques, é o lançamento de um plano de Mitigação, Avaliação de Impacto e Vulnerabilidade de Mudanças Climáticas do RN, até 2017. "Lá também foi produzido o inventário do plano de gases do efeito estufa", acrescenta.
Diante de todas as incursões pelo Brasil, o presidente da Abema reforça a necessidade de uma maior participação do setor privado nos fóruns. "Nossa recomendação é que haja a elaboração de leis estaduais e de incentivo a ações integradas e consolidação de parcerias", diz. Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:20 Parte 1 - A busca da mitigação na área ambiental, por Sucena S. Resk crédito foto: Sucena S. Resk
A palavra mitigação ganha força nos países em desenvolvimento, que buscam atenuar os efeitos das mudanças climáticas, provocadas pelo próprio homem. Líderes, políticos, governantes e especialistas tentam encontrar saídas a ações malsucedidas ou ausência de gestão de problemas, que se perpetuam por décadas. O motivo é um só: sem intervenções concretas, o futuro do planeta será uma grande incógnita. Essa tônica guiou o III Encontro Latino-Americano e Caribenho da Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável, realizado na última sexta-feira (14), no auditório Ibirapuera, em São Paulo.
O evento promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo em parceria com a Rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável (nrg4SD) e com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente para a América Latina e o Caribe (Pnuma) reuniu representantes da gestão pública estadual e federal brasileira, dos governos africano, argentino, basco, italiano, indonésio e mexicano, que puderam expor cases locais sobre programas desenvolvidos em suas áreas de atuação, dentro do conceito da importância da regionalidade.
O diretor regional do Pnuma para a América Latina e Caribe, Ricardo Sánchez Sosa, foi enfático quanto ao caráter humanitário das decisões. "Não podemos deixar que as forças cegas do mercado comandem. As organizações políticas e governos regionais têm problemas com nomes e sobrenomes. Não são mais estatísticas", afirmou. Sosa não mediu as palavras ao falar de situações que afligem o mundo. "Em alguns países na América Latina, de 10 a 70% das pessoas não têm lugar onde viver, não têm acesso à água potável e rede de esgoto e à eletricidade. Isso revela a importância da solidariedade, que envolve o universo de colaboração também do intercâmbio tecnológico", disse. A cadeia de cooperação, de acordo com o diretor deve se multiplicar - por meio de todas as esferas do governos e sociedade.
A quebra de fronteiras do conceito de humanização das relações foi exposta pela ministra do Meio Ambiente, Planejamento e Desenvolvimento Econômico - Província de Western Cape/África do Sul e co-presidenta da Rede nrg4SD, Tasneem Essop. "Quando as ações são realizadas por governos regionais já existem respostas práticas às mudanças climáticas, com o planejamento urbano, uso da terra, administração de desastres e inundações. O grande desafio na África do Sul, como na América Latina e Caribe é quanto à erradicação da pobreza. As ações dos governantes não podem estar separadas dos Objetivos do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU)", disse.
De acordo com a ministra, o aquecimento global pode ser hoje "o problema mais sério". "Mas não é hora de pessimismo, mas de ações", concluiu. Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:19 Onde está o Haiti?, por Sucena Shkrada Resk "Os problemas do Haiti começam aqui. Não temos a mínima noção do que acontece no país". A afirmação é do especialista em Relações Internacionais, professor Ricardo Seitenfus, durante o debate "O Gigante Vizinho: o Brasil na América do Sul", no último dia 12 de março. O evento foi promovido em São Paulo, pela BBC Brasil, em comeração aos 70 anos do serviço noticioso.
Segundo o docente da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM e consultor na Organização dos Estados Americanos (OEA), são graves as questões socioeconômicas - de fundo humanitário - no Haiti, localizado no mar do Caribe, na América Central. "São 200 anos de solidão, parafraseando o escritor Gabriel Garcia Marquez", diz.
A intervenção brasileira e da América Latina militarmente não consegue dar conta dos problemas crônicos, que se avolumam nesta nação, desde 1492, quando os espanhóis ocuparam a ilha e praticamente todos os aborígenes foram dizimados.
Já em 1967, os franceses receberam a cessão da parte oeste da Ilha, onde cultivaram cana-de-açúcar com a força de trabalho dos escravos africanos. E a independência só foi conquistada em 1804. Assim nascia a primeira nação negra das Américas. Mas a conquista não foi total, porque em 1814, o lado oeste foi tomado pela Espanha. E de 1915 a 1934, houve a ocupação dos EUA.
Todo o processo revela a história conturbada da nação, que teve mais um momento crítico, quando em 1957 foi eleito como presidente, François “Papa Doc.” Duvalier, que manteve um governo ditatorial. Após sua morte em 1971, foi sucedido por seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que perpetuou a linhagem de gestão. Somente em 1986, ele fugiu para a França, diante do aumento da oposição no país. E mais um golpe sofreu a população haitiana, quando subiu ao poder os militares, depois de uma breve passagem do padre Aristide.
Diante desse caos político, a Organização das Nações Unidas (ONU) e os Estados Unidos começaram a ter uma ação mais presente, para que voltasse o regime democrático. E isso, em tese, aconteceu, em 1994, quando uma força multinacional possibilitou a volta de Aristides ao poder. E 10 anos depois, com eleições, o presidente continuou no cargo, mas teve oposição armada de grupos rebeldes. E ressurge o caos: Aristide renuncia. Daí a ONU envia tropas armadas para o Haiti, sendo que a maioria é de soldados brasileiros, que permanecem no território.
"Hoje os principais problemas no Haiti são o lixo, as crianças abandonadas e uma sociedade complexa sem Estado. Mesmo assim, se mata em Porto Príncipe (capital do Haiti), menos que São Paulo", diz Seitenfus.
De acordo com o analista internacional, para se vislumbrar uma mudança real, há necessidade da entrada de recursos internacionais principalmente do Norte (países desenvolvidos). " Não é possível se recuperar a paz, sem perspectiva de desenvolvimento", afirma.
obs: fonte histórica consultada: site Brasil Escola
Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:18 O exercício da liberdade de imprensa, por Sucena Shkrada Resk
crédito foto: Sucena S. Resk
A liberdade de imprensa é um tema que ressurge como a alegoria da fênix, de tempos em tempos, e resulta em discussões que envolvem principalmente a categoria, os personagens políticos e as autoridades públicas e judiciárias, sem que se dê voz em muitas ocasiões, à sociedade como um todo. Assim deixa-se de lado, quem é, ao mesmo tempo, consumidora, objeto e parceira no desenvolvimento do jornalismo.
Esse tema foi o centro da discussão promovida no debate "Jornalismo no Século XXI: Objetividade X Subjetividade", promovido pela BBC Brasil, em comemoração aos 70 anos do serviço noticioso, no último dia 13 de março, no Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo. Os convidados dessa rodada foram o sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e da Faculdade Cásper Líbero, Laurindo Leal Filho; Mário Magalhães, ombudsman da Folha de São Paulo e Ricardo Boechat, editor-chefe do Jornal da Band. A mediação ficou sob responsabilidade do diretor da BBC Brasil, Rogério Simões.
Durante o encontro, houve o destaque à prática do respeito e integração mais próxima aos leitores, ouvintes e telespectadores, ao papel das TV públicas - em especial à criada recentemente pelo Governo Federal - e privadas, e sobre os limites impostos pelo controle da liberdade de expressão. O assunto ganhou mais fôlego, devido à polêmica recente que envolve ações contra jornalistas e publicações por representantes da sociedade civil e da liminar concedida em fevereiro, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, que suspende os efeitos de alguns artigos da Lei de Imprensa, como a pena por calúnia, injúria e difamação (que já são contempladas no Código Penal).
Público quer participar mais
A BBC de Londres realizou em novembro de 2007, uma pesquisa mundial sobre o tema - Liberdade de Imprensa -, em 14 países (África do Sul, Alemanha, Brasil, Cingapura, Egito, Emirados Árabes, EUA, Índia, México, Nigéria, Quênia, Reino Unido, Rússia e Venezuela), em que foram ouvidos cerca de 11.350 entrevistados, que puderam emitir sua leitura sobre os limites que envolvem a comunicação de massa. Apesar de culturas e linguagens diferentes, 56% afirmaram que a liberdade de imprensa é muito importante, sendo que 40% disseram que a harmonia social e a paz são ainda mais importantes e podem justificar o controle sobre o que é publicado.
Isso demonstra o papel estratégico exercido pelo chamado quarto poder e as implicações dos empresários e profissionais de comunicação, na tarefa de vender em todos os sentidos o produto - informação. Os cidadãos entrevistados, neste quesito, foram enfáticos em revelar sua preocupação com a concentração da mídia, cuja propriedade dos veículos de comunicação está em mãos de poucos. No Brasil, México, EUA e Reino Unidos, os percentuais de pessoas que responderam afirmativamente a essa questão foram 80%, 76%, 74% e 71%.
E um item muito importante desse levantamento foi a constatação de que a maioria (56%) quer ter sua voz ouvida sobre temas que estarão no noticiário, sendo que especificamente no Brasil e México, esse índice sobe para 74%. Por sua vez, 39% do total de entrevistados preferem deixar a decisão do que estará no noticiário às organizações jornalísticas. Esses dados mais uma vez revelam o quanto é imprescindível a ética.
O editor-chefe do Jornal da Band, Ricardo Boechat, afirmou que a intervenção do público é cada vez maior nas pautas da emissora. "Isso acontece, com gravações de imagens e encaminhamento de mensagens pela internet", disse. Segundo o jornalista, é uma integração positiva, pois a informação se caracteriza como bem da sociedade e, com isso, a eficácia de se tentar cercear a liberdade de imprensa se torna cada vez menor.
Para o editor, o ibope, entretanto, é uma escravidão. "O desafio da captura da notícia é abordar o assunto de forma atrativa. O público se ressente da mesmice. Por isso, em vez de ficar na visão macroeconômica do Produto Interno Bruto (PIB), optamos por ir ao varejo da população, para despertar o interesse do público sobre os temas", conta.
Com relação à avalanche de ações que vieram à tona recentemente contra uma jornalista e veículo da grande imprensa, movidas por fiéis de uma seita religiosa, Boechat disse que é necessário haver maior reflexão sobre o caso. "A forma de conduzir esse tipo de crítica de rebate às notícias não é um caso clássico de cerceamento, como na época da Ditadura, mas é uma manobra que não facilita a liberdade de imprensa", afirmou. O grande desafio, no seu ponto de vista, não é temer o "grande cerceador", mas como os jornais tratarão de se retificar para que exerça mais a isenção.
Defesa da prestação de contas
Na ótica do público, o progresso da imprensa hoje obriga que o jornalismo tenha de prestar contas", disse o ombusdman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães. O jornalista ilustrou casos de fraudes, nos últimos dois anos, que envolveram profissionais e veículos respeitados nos EUA e, inclusive, de um case brasileiro de um jornalista envolvido com caça-níqueis.
"A concentração de mídia no Brasil é algo obsceno. Inexiste democracia plena, se não há informação contraditória. É preciso equilíbrio de direitos - o de informar, ser informado, no âmbito individual e da sociedade", afirmou.
Segundo Magalhães, hoje, diferentemente do século XIX, a imprensa é fiscalizada também pela sociedade. " Isso é bom, inclusive, por meio de blogs. Como ombudsman, verifico que para os leitores não basta falar, mas participar. Querem uma relação honesta. Não estão satisfeitos com um papel passivo", disse.
No aspecto do profissional jornalista, Magalhães observa que muitos profissionais ainda sofrem constrangimentos físicos e de ordem econômica no exercício de suas atividades. "Em localidades menores, aumenta essa intensidade. Segundo o Consultor Jurídico, em 2007, houve mais de 3,1 mil ações por dano moral, sem considerar juizados de pequenas causas", disse.
O ombudsman da Folha de SP aponta a necessidade de equilíbrio. "Boa parte das empresas rés não têm condições de arcar com as custas dos processos. Já a vida do repórter virar um inferno", disse.
A ditadura do mercado
O sociólogo e jornalista Laurindo Leal fez uma análise histórica, desde o período da Revolução Industrial na Europa Ocidental até o século XXI. Segundo ele, a partir do século XVIII, as esferas públicas das classes trabalhadoras começam a ser protagonistas, para depois cair na atrofia do discurso, e ocorre o surgimento da consolidação dos oligopólios comunicacionais. "No século XX, surge a lógica capitalista de maior ibope. Os cidadãos de determinados países saem de cena, para as transnacionais tomarem seu lugar", disse.
Na década de 70, de acordo com o sociólogo, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) cria a Comissão - "Um Mundo e Múltiplas Vozes", com o propósito de democratizar o processo de comunicação. "Mas pressões sobre a organização, nos anos 90, acabou podando esse processo. A informação e seus meios passam a ser um bem econômico em vez de ser cultural, passando à discussão na Organização Mundial de Comércio", conta. Leal define essa situação como a ditadura do mercado.
Daí volta à discussão, os preceitos da Comissão da Unesco, que são o conceito do serviço de comunicação como um bem não comercial. E nesse contexto, surge a radiodifusão pública e estatal.
"A TV Pública brasileira está sendo implantada, provocando um debate de como efetivamente ser pública, já que tem forte presença do Estado. O distanciamento com o cidadão poderá torná-la inócua", considera.
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Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:17 Resiliência às adversidades, por Sucena Shkrada Resk Encontrar ícones, que sejam exemplos através das gerações, não é uma tarefa muito fácil. Mas quando encontramos histórias de vida que, no mínimo, nos fazem sair daquela inércia que chega a incomodar - já é um bom começo. Uma dessas histórias é a do pianista e regente brasileiro, João Carlos Martins, 68 anos. Com uma carreira brilhante - em que se destacou mundialmente como um dos melhores intérpretes de Bach - teve sua carreira musical abreviada e interrompida por várias vezes, após os 26 anos, depois de uma partida de futebol entre amigos, aparentemente inofensiva em Nova York. E hoje, é um regente que encanta multidões, capaz de também dedilhar ao piano, o Hino Nacional brasileiro em uma expressão muita própria, quase que numa súplica, que verte lágrimas de seus ouvintes.
Um incidente lhe rendeu o comprometimento dos nervos de sua mão direita - instrumento mais precioso de seu ofício. Daí por diante, cirurgias, intervalos, retornos, LER, comprometimentos físicos após sofrer um assalto na Bulgária, um tumor dianosticado na outra mão foram se somando às fatalidades que acometeram sua vida. Mas num gesto de resiliência, insistiu bravamente até onde pôde, a tocar os teclados, com o que restava de forças, apesar da dor.
Mas não se sentiu derrotado em sua arte e não teve medo de recomeçar, ao ingressar já na chamada terceira idade, em uma escola de regência. Voltou a ser aluno e adaptou suas dificuldades a decorar milhares de partituras, como conta. Esse processo de reconhecimento de como conduzir suas limitações abriu novas possibilidades. Compartilhar seu aprendizado na formação da Orquestra Bachiana Jovem - que atua com comunidades carentes ou narrar sua experiência em palestras motivacionais. Em reconhecer o potencial de pessoas portadoras de deficiência e incentivá-las. Enfim, multiplicar suas dores em gestos solidários. Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:15 Células-tronco embrionárias, por Sucena Shkrada Resk Fazer pesquisas com células-tronco embrionárias fere o princípio da vida na Constituição Brasileira? Esse é o grande debate que teve mais um round ontem (dia 05/3), no Supremo Tribunal Federal (STF). A pauta deve voltar à votação no prazo de um mês, devido ao pedido de vistas pelo ministro Carlos Alberto Menezes Direito, mas teve um posicionamento - no mínimo - corajoso da ministra Ellen Gracie, que antecedeu seu voto e se manifestou a favor das pesquisas. O mesmo parecer foi expresso pelo relator Carlos Ayres Britto.
Acompanho esse tema há algum tempo, e já tive oportunidade de falar com cientistas, especialistas jurídicos e representantes de religiões, além de pacientes com doenças crônicas degenerativas. Diante de todos os relatos, confesso que a "esperança da melhoria de qualidade de vida" e, inclusive, de possíveis reversões de doenças como diabetes, cânceres, neurológicas, cardíacas e lupus, entre outras tem um peso muito forte sobre os dilemas éticos e religiosos, que permeiam a pauta.
Pela Lei de Biossegurança brasileira, aprovada em 2005, é autorizada a utilização de embriões inviáveis ou congelados há mais de três anos em clínicas de fertilização, com o consentimento expresso dos genitores. A questão é se podem ser considerados seres vivos ou não. Uma corrente expressiva de especialistas, diz que não, outros, sim. O certo é que no Brasil, considera-se que um indivíduo está morto, quando há a paralisação definitiva encefálica. E no caso dessas células-embrionárias não existe o encéfalo.
Por um outro lado, a Ciência tem um longo caminho pela frente para os estudos dessa área, tendo em vista, que já se sabe que as embrionárias podem se transformar em qualquer tecido de nosso organismo, mas ao mesmo tempo, têm a possibilidade de ocasionar tumores. O grande desafio dos pesquisadores é encontrar a chave da reprodução das células condicionada à sua finalidade - por exemplo, de substituir neurônios lesados etc. Alguns pesquisadores falam em cinco anos ou décadas para haver a resposta. Mas esse é o "tempo da ciência", diferente do imediatismo das necessidades que permeiam as grandes doenças do século XXI. Sucena Shkrada Resk
19/03/200823:14 A superação refletida pela objetiva, por Sucena Shkrada Resk Ao ler hoje essa notícia publicada pela BR Press, por Juliana Resende, senti um misto de perplexidade e literalmente tristeza. Em Angola, está sendo realizado o concurso Miss Mina Terrestre, que tem sua votação pela web, por meio do site www.miss-landmine.org . As participantes são mulheres que foram mutiladas pelas minas terrestres que lotam o país. A princípio, pode parecer uma exposição excessiva, entretanto, ao refletir sobre todos os contextos, podemos perceber que é uma forma de superação de seqüelas incalculáveis e um alerta ao mundo.
O idealizador desse projeto é o norueguês Morten Traavik, que contou com o financiamento da iniciativa pelo governo de Angola e pela União Européia. E o que mais me causa espanto é que a ciranda de números sobre o número de mutilados é cada vez maior e, na verdade, o mundo não sabe a real extensão de vítimas, visto que, cada fonte relata um número totalmente diferente de pessoas. De acordo com a reportagem, são 70 mil, nos últimos 40 anos, em decorrência da guerra civil, que´envolveu os Movimento Popular de Libertação de Angola e a União Nacional para Independência Total de Angola (Unita) até o ano de 2002, mas que ainda deixou milhares de artefatos espalhados pelo território. Sucena Shkrada Resk /BlogInicioPost?>
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